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António Mega Ferreira António Mega Ferreira Escritor, gestor e jornalista, diretor executivo da Associação Música Educação e Cultura/Orquestra Metropolitana de Lisboa

Mudámos, mas somos os mesmos

António Mega Ferreira
António Mega Ferreira Escritor, gestor e jornalista, diretor executivo da Associação Música Educação e Cultura/Orquestra Metropolitana de Lisboa

Em 30 anos, Portugal mudou, mudaram os hábitos de consumo e de sociabilidade e começaram a mudar os portugueses. O país urbanizou-se, isto é, tornou-se uma gigantesca conurbação, muito por efeito da proliferação algo descontrolada das autoestradas e o crescimento exponencial do parque automóvel para transporte individual, que tornaram tudo mais próximo e de fácil acesso. Ao mesmo tempo, litoralizou-se, quer dizer, concentrou-se crescentemente na faixa costeira, com a consequência inevitável da desertificação do interior, que começara duas décadas antes, mas que se acentuou dramaticamente nas últimas três.

Com a grande Cidade veio a uniformização dos hábitos, para a qual a contribuição fundamental foi a da televisão, primeiro, e, já no nosso século, a internet e as redes sociais. Tudo se tornou mais acessível e a informação converteu-se numa commodity, com valor mercantil assegurado, embora muitas vezes sem valor social apreciável. E mudaram as práticas de consumo, com a proliferação das grandes superfícies, as quais, em diversas zonas do país, praticamente liquidaram o comércio tradicional, cuja capacidade de adaptação, valha a verdade, e atentas as diferenças colossais de dimensão e meios mobilizados, seria sempre reduzida.

Um aspeto saliente desta “urbanização” crescente foi o aumento exponencial da literacia e da frequência escolar. O analfabetismo está hoje reduzido a uma franja residual da população (menos de 8%) e o aumento do número de licenciados subiu em flecha nestas três décadas. A educação revelou-se como um fator influente de mobilidade social, porventura o mais notável, quando medidos os seus efeitos num prazo médio/longo.

A melhoria das condições sanitárias e dos cuidados de saúde tornou-se um fator de significativo aumento da qualidade de vida, não apenas nos meios urbanos, mas também em zonas tradicionalmente excluídas do sistema de saúde pública. Uma das consequências desta subida dos padrões qualitativos foi o aumento da expectativa de vida dos portugueses. E uma consequência perversa desta conquista virtuosa é o envelhecimento da população, que António Guterres antecipara em 1991 (e nessa altura toda a gente se riu dele), que se tornou uma realidade demográfica com consequências económicas cada vez mais visíveis e consequências imprevisíveis sobre a sustentabilidade do sistema de segurança social. Haverá reformas suficientes dentro de trinta anos?

Em trinta anos, o sistema político arquitetado pelos atores do 25 de Abril perdeu credibilidade e tornou-se o “bombo da festa” de toda a gente, desde juízes formados à pressa até jornalistas nem sequer bem formados. A incapacidade para resolver “problemas estruturais” (de que toda a gente fala, mas que quase ninguém é capaz de nomear adequadamente) tornou-se o argumento para demolir, por tudo e por nada, os inegáveis e objetivos avanços da sociedade portuguesa em democracia.

Porque a verdade é que, apesar das visíveis mudanças, uma parte importante do país resiste hoje, como sempre resistiu historicamente, a mudar. Somos (genericamente) os mesmos na lamúria e na pedinchice, os mesmos no corporativismo e no compadrio, os mesmos na fuga ao fisco e no sentimentalismo barato. Às vezes, tem-se a sensação incómoda de que mudámos (muito) por fora e (quase) nada por dentro. Povo antigo que, à imagem do clima que nos embala, somos temperados na determinação, moderados na expressão dos afetos, reticentes na resposta aos desafios, acomodados na nossa relativa modéstia. Não creio que os próximos trinta anos mudem muito a nossa maneira de ser: seria preciso haver um cataclismo para que as fundações da nossa identidade coletiva pudessem ser revolvidas. Mas isso é o que ninguém quer – eu incluído.

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