Fechar
Abrir

Narciso Miranda, o “senhor de Matosinhos”

Eleito pela primeira vez presidente da Câmara em 1979, pelo PS, Narciso Miranda é considerado o “senhor de Matosinhos”. Ao longo de mais de 25 anos, teve como preocupação que o concelho “deixasse de ser um subúrbio” do Porto.

“Entrei [na Câmara de Matosinhos]em 03 de janeiro de 1977, eleito como número dois, sem saber ler nem escrever, do ponto de vista político e autárquico. Entrei naquela onda da chamada euforia de se querer fazer qualquer coisa para se limpar a imagem de um país muito atrasado, injusto”, recorda à Lusa Narciso Miranda, o autarca que fez de Matosinhos um bastião do PS.

Foi nas eleições autárquicas seguintes, em 1979, que Narciso encabeçou a lista do PS no concelho e, desde então, reeleito sucessivamente, assumiu a presidência da Câmara de Matosinhos até às autárquicas de 2005.

Motivado pela vontade de dar a volta a “uma terra profundamente desorganizada”, “com fraturas gravíssimas”, quer a nível social como habitacional, ao nível das suas infraestruturas e que era “o caixote do lixo, que recebia o que não prestava, o que era poluente”, Narciso delineou a sua estratégia para transformar o concelho logo no seu primeiro mandato.

“Percebi logo que a Câmara sozinha não era capaz”, diz, recordando que pediu “a colaboração da Igreja na área social, para as crianças e a terceira idade, mas também para que não se perdesse o património histórico e cultural”, porque Matosinhos “nasceu pelo seu núcleo de pesca, mas ficou sempre por aí, apenas ancorado na sua história, no seu património histórico e pouco mais”.

Segundo Narciso Miranda, os seus mandatos foram seguidos pelo lema “em Matosinhos não interessa quem faz, interessa que se faça” e pela aposta “numa política policêntrica, baseada em edificações marcantes, que condicionariam “tudo à volta”. Exemplo disso foi o edifício dos Paços do Concelho, que “se impõe”.

Passando uma mensagem à população para que aumentasse “a sua autoestima”, o ex-autarca diz ter conseguido “mudar um concelho, que deixou de ser escolhido porque ali se arranjava emprego, mesmo que fraco, e porque ali se comia bem, mesmo que se tivesse de tapar o nariz” devido à antiga fábrica da tripa, na avenida Menéres, uma das artérias da zona habitacional que nasceu ao longo dos seus mandatos no concelho, no âmbito do “Plano de Reconversão de Matosinhos-Sul”, desenhado pelo arquiteto Siza Vieira.

Narciso confessa que o que mais o marcou foi ser agraciado, em 1983, Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, que distingue quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no país ou no estrangeiro.

O ser considerado o “senhor de Matosinhos”, considera, prende-se com o facto de ser oriundo de uma família humilde e com o “respeito” que tem “ao falar com todas as pessoas, ao mesmo nível”.

Guilherme Pinto, presidente da Câmara de Matosinhos eleito em 2005 depois de ter sido vereador e vice-presidente de executivos anteriores liderados por Narciso, reconhece que a obra do ex-autarca no concelho “é fantástica”.

“Para quem não tinha nada, não havia nada, é evidente que deixa uma obra fantástica”, frisa.

Suspendendo o mandato, entre outubro de 1999 e setembro de 2000, assumiu o cargo de secretário de Estado da Administração Marítima e Portuária do governo socialista liderado por António Guterres. Narciso foi afastado das autárquicas de 2005 com a morte de Sousa Franco na lota local, durante uma ação de campanha para as eleições europeias marcada pelo confronto de fações rivais do PS local, em 2004, mas em 2009 concorreu novamente enquanto independente, tendo sido derrotado pelo então candidato socialista Guilherme Pinto.

Narciso, porém, não consegue afastar-se do concelho, porque “respira, discute, sente e vive intensamente” Matosinhos e já anunciou que vai voltar a candidatar-se ao cargo de presidente da Câmara nas autárquicas de 2017, como independente.

O ex-autarca sublinha que “o projeto de Matosinhos não está acabado, [porque]é um projeto que se renova permanentemente e está sustentado numa grande ambição”, havendo “sempre muito a fazer, muito a produzir”.

Nas ruas, Narciso é muito abordado e ainda é tratado por “presidente”.

 

Voltar atrás