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Óbidos, de concelho rural a marca cultural

Uma autarquia apostada em pôr o património a gerar riqueza transformou Óbidos, um concelho rural, numa referência cultural reconhecida nacional e internacionalmente pelos eventos que, nos últimos 15 anos, atraíram um número crescente de visitantes.

A “agenda da transformação” deu os primeiros passos em 2002, quando Telmo Faria assumiu a presidência da Câmara do que era então um concelho com sete freguesias rurais e uma vila muralhada.

Nas freguesias imperava “uma agricultura em dormência” e, entre muralhas, uma vila museu, habitada por cerca de meia centena de pessoas e voltada para o turista, sobretudo estrangeiro.

“Era preciso olhar para o território e perceber como é que se podia pôr o património ao serviço da economia para atrair mais pessoas, mais negócios e mais investimentos”, recorda o então presidente da autarquia.

A “obsessão pela riqueza” ditou a aposta do autarca “numa programação cultural a pensar no ano inteiro” e que retirasse a Óbidos a conotação de uma “monocultura para públicos mais eruditos”, como o Festival de Música Antiga ou a Semana Internacional do Piano.

O Mercado Medieval foi, no verão de 2002, o primeiro evento a chamar visitantes. Em novembro, a primeira edição do Festival Internacional de Chocolate pôs Óbidos nas ‘bocas do mundo’, gerando filas de trânsito na autoestrada 8 e esperas de várias horas nas bilheteiras.

Na Câmara Municipal desenhavam-se “mapas mostrando que a uma hora de Óbidos estavam três milhões de pessoas” e a autarquia concluiu que, para atrair o mercado nacional, só tinha de “desenhar boas propostas”.

Ao chocolate seguiu-se a Vila Natal e o Festival de Ópera, único do género na Península Ibérica, com grandes obras entre muralhas, com o Largo de S. Pedro ou a Lagoa de Óbidos como cenário.

“Chegámos a ter 260 dias, dois terços do ano, com atividades culturais”, sublinha Telmo Faria, acrescentando ter havido “ocasiões com 15 ou 20 mil pessoas em simultâneo na vila”, sobretudo no Festival de Chocolate, que chegou a atrair cerca de 200 mil visitantes por edição.

Em 2007, a vila é eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal. Óbidos estava na moda e na agenda política, com governos a realizarem conselhos de ministros na vila e com governantes de todos os quadrantes a querem assistir aos eventos que, depois de consolidados, se estenderam às freguesias e a grandes quintas, habitualmente fechadas ao público.

O concelho tem hoje “uma ruralidade moderna”, defende o atual presidente da Câmara, Humberto Marques, considerando que com a cultura veio “uma agenda da criatividade e da inovação”, que acabou por se refletir na transformação do setor agrícola e da comunidade rural.

O autarca, que como vice-presidente acompanhou, desde 2012, o processo de transformação, destaca a “reabilitação social do território”, onde tem havido a preocupação de integrar as populações na dinâmica cultural.

“No primeiro [Mercado] Medieval, participaram quatro associações, no segundo ano eram 11, hoje são 19”, afirma, acrescentando que, em várias aldeias, “foram criados grupos de teatro, grupos de dança e grupos de animação” que participam nos grandes eventos.

O papel da cultura no desenvolvimento mede-se também pelo facto de, “nos últimos anos, não ter havido um único trespasse na Rua Direita [a principal rua de comércio]” e pelo surgimento de novos negócios.

Entre eles, 11 livrarias criadas em locais tão improváveis como uma escola, uma capela ou mercado biológico, no âmbito do projeto “Óbidos vila literária”, iniciado em 2012.

A “utopia” urbana de um território rural apostado na diferenciação e na especialização dos seus produtos ganhou novo fôlego com a concretização, em 2015, do Folio – Festival Internacional de Literatura, que ao longo de 11 dias atraiu 30 mil visitantes.

A visibilidade alcançada com a repercussão noticiosa do festival em vários países, sobretudo no mundo lusófono, “teve um valor na ordem dos cinco milhões de euros”. Mas, mais do que em euros, o saldo positivo da aposta na literatura mede-se pela integração da vila, em dezembro último, na rede de cidades criativas da literatura da UNESCO.

E podia pensar-se que estava atingido o topo. Mas, a “obsessão” mantém-se. Na calha já está mais uma candidatura que poderá transformar Óbidos na próxima Capital Mundial do Livro, em 2018. E na forja um novo festival, desta vez na área do cinema.

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