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Os brasileiros vieram e Vila de Rei começou combate à desertificação

O combate ao êxodo populacional é, desde há décadas, uma preocupação dos responsáveis políticos de Vila de Rei, no distrito de Castelo Branco, que teve em Irene Barata, eleita presidente da Câmara em 1990, um dos principais porta-estandartes.

A eleita do PSD fez deste combate a sua bandeira durante 24 anos, tendo deixado na memória dos portugueses o episódio do acolhimento de famílias brasileiras, com o intuito de travar a desertificação do concelho.

“Quando fui eleita tinha 44 anos e em Vila de Rei não havia nada. Os grandes incêndios da década de 80 destruíram tudo, os jovens não tinham trabalho, não havia estradas alcatroadas nem água canalizada na maioria das 94 povoações do concelho. Os jovens e os adultos queriam era sair daqui, em busca de trabalho e de melhores condições de vida”, lembra à Lusa Irene Barata, 72 anos.

Hoje, a exercer o cargo de Provedora da Misericórdia de Vila de Rei, o maior empregador local, com 210 funcionários, num município onde residem cerca de 5 mil pessoas, não esconde que “travar o processo de desertificação, que levava os jovens para longe e deixava o município despovoado”, foi o principal combate da sua vida autárquica ao longo de seis mandatos.

“Tentei de tudo e nunca claudiquei, porque, em causa, estava a própria viabilidade do concelho”, afirma, apontando para os resultados, tímidos, que hoje revelam uma ligeira inversão dos números de habitantes em Vila de Rei, município que assinala o centro geodésico de Portugal.

De acordo com os Censos, só dois concelhos do distrito de Castelo Branco conseguiram aumentar a população entre 2001 e 2011: Vila de Rei e a própria capital de distrito. Apesar de continua a ser o concelho com menos residentes do distrito, Vila de Rei viu aumentar em cerca de uma centena o número de habitantes numa década.

“Sabemos que este tipo de combate só tem resultados positivos ao fim de muito tempo, mas fiz tudo o que era humanamente possível e não estou arrependida de nada”, sublinha, recordando a aposta feita no acolhimento de brasileiros de Maringá e, mais tarde, na economia social.

Vila de Rei “foi o primeiro município do país a dar apoios financeiros ao casamento e ao nascimento”, que hoje continuam, numa forma mais alargada, nomeadamente quanto aos custos com educação e outros serviços, frisa a ex-autarca.

“O processo de geminação com Maringá e a vinda de habitantes para cá foi boa”, considera Irene Barata, ao evocar um processo que fez correr muita tinta dos dois lados do Atlântico.

De acordo com a atual Provedora da Misericórdia, “foi bom, porque deu a conhecer Vila de Rei”.

“E lembro que não trouxemos clandestinos para cá. Os primeiros brasileiros a estabelecerem-se aqui vieram com contrato de trabalho e hoje temos ainda um casal que se integrou muito bem e vive em São João do Peso, já teve vários filhos, e um outro casal está estabelecido no vizinho concelho da Sertã”, acrescenta.

Segundo Irene Barata, “só por esses valeu a pena”, embora defenda que “isto é um bocado como os lavradores: semeia-se e tenta-se”, ao mesmo tempo que assegura que “a aposta na economia social foi a semente que germinou” e travou o processo de desertificação.

O atual presidente da Câmara de Vila de Rei, Ricardo Aires (PSD), diz que as instituições de apoio social (lares, centros de dia, cuidados continuados) são uma das áreas de maior dinamização socioeconómica do concelho, notando que as mesmas representam hoje 10% da oferta de emprego (334 pessoas repartidas por seis instituições), enquanto a autarquia (já incluindo o pessoal não docente do agrupamento de escolas) conta com 129 postos de trabalho.

“A economia social foi, efetivamente, a semente que germinou, depois de quase 30 anos de uma luta desigual. É o nosso presente e o nosso futuro”, vinca, anunciando que, “a breve prazo, vai começar a funcionar o Centro Geriátrico de Vila de Rei, a que se segue a Cercitop”, também na área de cuidados continuados.

Os últimos indicadores “confirmam que estamos no caminho certo, mas estamos conscientes de que estamos em viagem, que o trabalho está longe de ser finalizado e muito ainda existe por fazer. A criação de medidas efetivas por parte do Governo poderia ajudar em muito mas, até lá, teremos que ser nós a continuar a conduzir o barco”, conclui.

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