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Ourique afirma-se como “capital do porco alentejano”

Alarmado pelo “risco” de extinção que pairava sobre o porco alentejano, o concelho de Ourique apostou na promoção e afirmou-se “capital” da raça, cuja fileira é hoje uma “âncora de desenvolvimento importante” para a economia local.

“É indiscutível que é uma âncora de desenvolvimento importante para a economia local e com impactos na afirmação de um mundo rural, que nem sempre tem tido a atenção necessária do poder central”, diz à agência Lusa Pedro do Carmo, que liderou o município entre 2005 e 2015 e lançou a estratégia de promoção da raça e de afirmação de Ourique, no distrito de Beja, como “capital do porco alentejano”.

O atual presidente da Câmara, Marcelo Guerreiro, em declarações à Lusa, também considera que a fileira do porco de raça alentejana – conhecido como porco alentejano ou preto – é “muito importante” para o concelho e, por ter atividades que abrangem os três setores da economia, “é um dos maiores motores de criação de valor acrescentado, riqueza e postos de trabalho”.

A fileira, que é “uma âncora fundamental da estratégia de desenvolvimento do município e um fator de atratividade económica e fixação de população”, abrange o setor primário, através da produção de porco alentejano, o secundário, com a transformação da carne, e o terciário, com a prestação de serviços e da comercialização da carne e de produtos derivados, explica.

Segundo a Associação de Criadores de Porco Alentejano (ACPA), sediada em Ourique, no concelho há 45 explorações que produzem porcos da raça, que são reconhecidos pela pele preta, pela cabeça comprida, pelas orelhas pequenas e pelo sabor suculento da carne. São criados no montado de azinheiras e sobreiros, ecossistema típico do Alentejo, onde pastam livremente, alimentando-se de quase tudo o que natureza oferece, sobretudo de bolotas, ervas e bichos.

No mesmo concelho, também há três empresas que transformam a carne em produtos derivados e são, frisa a ACPA, “uma importante fonte” de escoamento da matéria-prima e de empregabilidade.

A maior empresa, a Montaraz, instalada na localidade de Garvão, já investiu dois milhões de euros, desde que começou a funcionar, em 2007, tem 48 trabalhadores e assegura ser “um dos maiores empregadores privados do concelho e uma das principais unidades de transformação de porco preto a operar em Portugal”.

Afirmando ser “a empresa que efetua mais abates semanais de porco preto alentejano em Portugal”, a Montaraz produz presuntos, paletas, enchidos e carne fresca em cuvete, para o mercado nacional, e ultracongelada, para exportação, segundo informações da própria empresa.

Cerca de 80% da produção é comercializada em Portugal e o resto exportado, sobretudo para Brasil, China, Macau e Hong Kong, refere a empresa, que, em 2015, teve um volume de vendas de 3,7 milhões de euros e está a ampliar a fábrica, o que permitirá aumentar a produção de presuntos e paletas e criar “mais alguns postos de trabalho”.

Atual deputado do PS por Beja, Pedro do Carmo conta que a “aposta” na promoção do porco alentejano “nasceu” em 2006 da “vontade” do município em “desenvolver uma estratégia que promovesse a raça, defendesse o mundo rural e pudesse criar riqueza”.

Pedro do Carmo lembra que a raça corria o risco de se tornar “muito ameaçada” caso não se tomassem medidas, já que havia muitos produtores a abandonar o setor e o efetivo reprodutor a diminuir devido à “forte quebra” da rentabilidade da atividade.

“O conhecimento da realidade da minha terra e o risco fizeram tocar a campainha do alarme: era preciso transformar um problema numa oportunidade de afirmação” e, assim, “nasceu a ideia diferenciadora” e a afirmação de “Ourique, capital do porco alentejano” para promover a fileira e a “qualidade” da carne da raça e dos produtos derivados, salienta.

Pedro do Carmo aponta, entre as potencialidades da fileira, os postos de trabalho criados nas explorações de criação e nas indústrias de transformação e a “qualidade ímpar” da gastronomia à base da carne e dos produtos derivados como “fator de atracão de turistas”.

O atual autarca também faz um balanço “positivo” da estratégia, frisando que “o ponto de partida foi o de um concelho sem referências como marca de identidade e com uma atividade económica [a associada ao porco alentejano]em risco de extinção”.

Através da estratégia municipal, Ourique conseguiu “recuperar” a atividade, “gerar algumas soluções de transformação da carne de porco alentejano”, “projetar os produtos de excelência” derivados e “dinamizar a economia”, frisa Marcelo Guerreiro.

Segundo o autarca, a fileira “animou a preservação do montado, dinamizou explorações agropecuárias e atividades associadas, mobilizou momentos de afirmação da excelência dos produtos, contribuiu para afirmar as potencialidades do mundo rural e incorporou-se como uma marca da identidade de Ourique”.

O presidente da ACPA, Nuno Faustino, frisa que “Ourique tem promovido uma dinâmica de desenvolvimento do porco de raça alentejana e dos seus produtos”, que os tem “projetado a nível nacional e internacional”.

Para Nuno Faustino, a parceria entre o município e a ACPA tem sido “extremamente positiva em prol do desenvolvimento” da fileira e “contribuído bastante para a promoção da raça e dos seus produtos”.

A autarquia e a ACPA lançaram, em 2007, as jornadas gastronómicas “Sabores do Porco Alentejano”, as quais, em 2011, deram origem à Feira do Porco Alentejano, realizada anualmente e que foi visitada, este ano, por 60 mil pessoas.

Em 2014, foi criado o Centro Interpretativo do Porco Alentejano, onde é possível conhecer as características e o processo de criação da raça e, numa loja gourmet, comprar produtos derivados.

Também em 2014, o município e a ACPA criaram a Rota do Porco Alentejano, que engloba 42 produtores, as três empresas de transformação, dez restaurantes do concelho e o centro interpretativo.

No mesmo ano, foi criada uma aplicação para ‘smartphones’ e ‘tablets’ para divulgar a raça e as potencialidades do concelho, e, em 2015, o Centro de Competências do Porco Alentejano e do Montado, destinado a promover a competitividade da fileira e a investigação para a preservação e a recuperação do montado.

As duas entidades organizaram ainda, em Ourique, o I Congresso Ibérico Porco Alentejano, em 2008, e o 7.º Congresso Mundial do Presunto, em 2013, ano em que o evento decorreu pela primeira vez fora de Espanha.

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