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Ovar luta contra o mar e pede reforços como numa “invasão por espanhóis”

O combate à erosão costeira é considerado “a batalha” de Ovar, perante o desaparecimento dos seus areais nos últimos anos, havendo quem reclame para essa missão esforços nacionais como os que haveria em caso de “uma invasão por espanhóis”.

“O avanço do mar é ‘o problema’ de Ovar”, defende Emília Cunha, proprietária do estabelecimento comercial da Praia do Furadouro com registo de maiores prejuízos ao longo dos anos devido à força das marés.

“Com as alterações climáticas e as obras na Foz [do Porto], já perdemos mais de 200 metros de areal e, se não fizerem nada, o mar chegará ao centro de Ovar”, explica.

Para evitar que as ondas voltem a entrar-lhe pelo café, a empresária pede “obras e sensibilidade dos governos”, como se verificaria, “aliás”, noutro contexto de idêntica perda de território.

“Se isto fosse uma invasão pelos espanhóis, estávamos todos na rua a lutar. Sendo diferente, isto continua a ser uma invasão que exige batalha”, proclama.

José Costa Gomes, presidente da autarquia de 1986 a 1993, já combatia o problema nessa altura: “Colocávamos pedra para remediar a coisa. Eram só paliativos, porque as verbas da Europa eram canalizadas para saneamento e ficavam-se por Lisboa. Tal como agora, o que ia para o resto do país eram gotas de água”.

O ex-autarca do PSD identifica os mesmos culpados que Emília: “As barragens foram muito úteis para produção de energia, mas tiveram consequências muito negativas, porque retiveram os inertes que abasteciam os areais”, explica.

“É preciso travar isto com pedra pesada, mas como, se o país está falido?”, questiona.

Salvador Malheiro, o atual presidente da Câmara, prefere o discurso “otimista”. Sobrepõe à saudade dos areais “a perder de vista”, em Cortegaça e Esmoriz, o seu sentido prático de engenheiro mecânico: “É verdade que os nossos 14 quilómetros de costa estão emparedados, mas, como as alterações climáticas são irreversíveis, sem esses muros as consequências seriam muito piores”.

Emídio Silva sabe do que fala o autarca social-democrata. O mar entrou-lhe três vezes no seu “primeiro barraco” no bairro piscatório de Esmoriz.

“O pior foi há 30 anos, quando eu e a minha mulher só ficámos com a roupa do corpo. Até as galinhas morreram afogadas”, recorda.

Esperou até 2015, pelo realojamento numa habitação social. “Agora estamos aqui bem. Mas o mar já está na estrada e, se não fizerem reforços, daqui a 10 ou 15 anos lá se vai a casa nova outra vez”, alerta.

Para Salvador Malheiro, é por isso que a batalha não pode ser descurada. “A única coisa que permite ganhar terra ao mar é a alimentação artificial das praias e obras de engenharia pesada”, declara. “O Governo pode não ter condições de as suportar, mas já nos disponibilizámos para lhes afetar parte do erário municipal”, insiste.

Por mais que custem estas intervenções, a solução continuará a revelar-se poupada. “Em 2015 gastámos dois milhões de euros para realojar 100 pessoas de Esmoriz sinalizadas desde os anos 80”, nota Salvador Malheiro. “Como só no Furadouro, em Cortegaça e em Esmoriz temos 5.000 pessoas na costa, é mais barato ganhar terra do que deslocalizar toda esta gente”, garante.

Emília Cunha concorda e não se importa de contribuir com impostos.

Nas casas de madeira do bairro piscatório de Esmoriz, José Carapuço gostava de manter-se junto à praia, mas preferia fazê-lo com casa seca. “Nos anos 80, a água começou a entrar-nos por cá dentro e isso chateia. Mas ainda acredito que podemos mais do que o mar”, argumenta.

Já o seu vizinho acha que o mar “há de entrar sempre na terra por algum lado”. Américo Silva não recrimina os muros de pedra que agora lhe separam a casa da praia: “Se não os tivessem botado aqui, já não sobrava cá ninguém”.

Preferia, contudo, que a intervenção se fizesse dentro de água, para lhe devolver a antiga praia. “Dantes era cada barranca de areia… Só dunas e pinhal, com palheiros no meio”, recorda. E o mar era mais generoso também no sustento: “Caçavam-se solhas com o pé, às vinte e trinta por dia. Eram uns ricos tempos, eram. Uma farturinha!”.

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