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Pampilhosa da Serra quer travar desertificação com mais investimentos

O município da Pampilhosa da Serra aposta nas infraestruturas públicas para inverter um ciclo de quase um século a perder população, envolvendo nesse esforço privados que sonham regressar à terra natal.

A quebra do número de residentes neste concelho do distrito de Coimbra atingiu os dois terços, em 2011, tendo descido desde 1930 de 13.450 para 4.480 habitantes.

Integrada nos planos da autarquia para contrariar a desertificação, a última conquista com esse objetivo é o novo Centro de Saúde, a funcionar desde abril.

Para o presidente da Câmara, José Brito, “ninguém arrisca viver” num concelho que não assegure “uma primeira resposta de proximidade na saúde”.

O Centro de Saúde representa um investimento de um milhão de euros, com comparticipação da União Europeia.

Entre os naturais da Pampilhosa da Serra que investiram na localidade, está Rui Olivença, dono do Villa Pampilhosa Hotel, unidade de quatro estrelas aberta em 2012, que custou 4,5 milhões de euros, tendo beneficiado de financiamento comunitário.

“Lutamos há muitos anos por aquilo que ainda não conseguimos totalmente”, afirma José Brito à agência Lusa.

O município, “sem meios suficientes” para travar a desertificação e o isolamento, insiste em atrair projetos privados e reclama mais ajuda da Administração Central.

José Brito, autarca do PSD, critica os governos, “que duplicaram infraestruturas no litoral”, omitindo obras nos territórios de baixa densidade demográfica, “que permitiam atrair mais investimento” e criar emprego.

“As infraestruturas básicas estão mais ou menos asseguradas. O interior tem uma qualidade de vida muito grande”, refere, ao salientar “o enorme potencial da Pampilhosa no turismo ligado à natureza”.

Após a construção da A13, que passa no concelho de Figueiró dos Vinhos, “estamos mais próximos de Lisboa e do Porto”, congratula-se.

Importa agora que o Estado avance com a reabilitação da estrada nacional 344, que liga Pampilhosa da Serra a Pedrógão Grande.

“Com sete ou oito milhões de euros, estamos no IC8 e na A13”, defende José Brito. “Então, sim”, terá valido a pena, para o autarca, o atual Governo ter criado a Unidade de Missão para a Valorização do Interior.

Ao longo do século XX, milhares de pessoas abandonaram Pampilhosa da Serra e a região por razões económicas.

Muitas dessas famílias radicaram-se em Lisboa. Com os descendentes, constituem atualmente uma comunidade de 30 mil membros que mantém a ligação à terra de origem.

É o caso de Maria Alice Alves, de 73 anos, que nasceu na aldeia de Pescanseco e partiu cedo para a capital, onde abriu um salão de cabeleireira.

Esta reformada e o marido repartem a vida entre Lisboa e Pampilhosa, “a capital do sossego”, como lhe chama.

“Temos aqui muita natureza e muita calma”, conta Maria Alice à Lusa.

Nado e criado em Signo Samo, Pampilhosa da Serra, José Antunes Martins tinha 7 anos quando acompanhou a família rumo a Lisboa.

O pai, como tantos estivadores da região, laborava no porto de Lisboa. Aos 44 anos e a residir na zona de Sintra, José trabalha no ramo imobiliário e regressa à aldeia “pelo menos uma vez” por mês.

“Continuamos a cuidar da nossa agricultura”, da qual a mãe, viúva, nunca se desligou, afirma.

Nos últimos anos, interessou-se pelo cultivo do medronheiro. Em Signo Samo e arredores, de onde “as pessoas saíam a chorar”, possui agora 48 hectares de medronhal.

Com os frutos, vai passar a produzir a sua própria marca de aguardente, tendo para o efeito construído uma moderna destilaria na zona industrial da Pampilhosa.

“Na cidade, as pessoas vivem com as horas e os tostões contados. Não vivem a vida, andam a trabalhar para a grande finança”, lamenta José Martins, concluindo que o aproveitamento dos recursos naturais “é uma das formas de combater a desertificação”.

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