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Porto de Mós, onde lagoa classificada espera pela chuva a cada ano

No limite do concelho de Porto de Mós, há uma formação geológica rara na Europa, classificada em 2005 e que, quando chove intensamente, forma uma lagoa sazonal que pode atingir até quatro quilómetros de comprimento.

O polje Mira-Minde é uma importante depressão cársica no Maciço Calcário Estremenho e liga os distritos de Leiria e Santarém, tendo a sua importância sido reconhecida com a classificação de Sítio Ramsar, há 11 anos, naquele que foi um momento alto para o concelho.

O sistema hidrológico subterrâneo faz com que, em invernos de muita chuva, a água brote intensamente, permitindo navegar de Mira de Aire a Minde.

A lagoa que daí resulta permite andar de barco e mota de água ou até fazer mergulho com garrafa em pleno Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC).

Manuel Matos, 52 anos, morador em Mira de Aire, lembra-se de faltar às aulas quando era novo “para dar uns mergulhinhos” no Poço da Espinheira, um dos sítios do polje que tem água todo o ano.

Ele é um dos proprietários dos vários barcos que existem naquela zona da serra e que esperam a subida da lagoa para entrar em ação.

“Isto cheio de água é um mar. Um espetáculo. Tenho saudades de ver isto cheio”, admite, recordando as últimas maiores lagoas, em 2001 e 2006.

“Antes, as pessoas não gostavam da lagoa, porque estragava as culturas. Agora, a malta nova está sempre deserta que tenha água para passeios e fotografias. Quando há água, vem muita gente de fora ver”, sublinha Manuel Matos.

Com o seu barco a motor, este morador faz trajetos pela lagoa. A água chega a cobrir completamente as árvores e tem peixes. “Mas não dá para pescar. Há umas ‘carpazinhas’, mas elas não mordem o anzol”. Já caracóis, dá para apanhar com fartura, porque “fogem da água para cima das paredes e das árvores e apanham-se que é um espetáculo”.

Contudo, nem tudo é positivo na lagoa do polje Mira-Minde. O presidente da Junta de Freguesia de Mira de Aire lamenta que “não esteja devidamente explorado turisticamente”.

Artur Vieira diz que “há vários pontos de interesse” na zona do polje, mas “faltam placas indicativas”.

Além disso, o autarca afirma que a lagoa já não enche como antes. Segundo o presidente da Junta, “a crise ajudou a estragar a lagoa”, porque “fez com que algumas pessoas voltassem a cultivar as terras” para autoconsumo.

“Para não alagar os terrenos, abriram lagares que estavam tapados, para a água escoar. De há três ou quatro anos para cá perdeu-se a hipótese de a água se juntar tanto. Isto é como um queijo suíço, tudo furado, e a água escoa muito facilmente”, defende Artur Vieira.

O geólogo José António Crispim não acompanha o pessimismo do presidente de Junta de Mira de Aire.

A limpeza de alguns sumidouros não é suficiente para ter impacto na lagoa, porque “acontece numa zona muito reduzida”. Consoante a precipitação, “há anos em que não inunda e há outros em que inunda até abril”.

“Se as chuvas forem poucas e muito distribuídas, não inunda. Já se forem poucas, mas muito concentradas, inunda”, sublinha o geólogo.

Para José António Crispim, o problema do polje Mira-Minde é que “não está valorizado e está em degradação”: “Apesar do estatuto privilegiado que tem no plano de ordenamento do PNSAC, há áreas urbanizáveis, que caem sob a alçada dos PDM, e há sempre exigências locais para fazer parques industriáveis, pavilhões e mais áreas urbanizáveis. A pouco e pouco está cada vez mais degradado”.

Segundo o especialista, não foi sequer respeitada a visualização do polje, apesar do elevado potencial turístico.

“Na zona onde seria mais fácil observá-lo, na estrada que liga Mira de Aire a Minde, há construções – presumo que ilegais – e alguns aterros. Aquilo que podia ser um percurso agradável, acaba por não o ser”, aponta o geólogo, identificando apenas três sítios de onde é possível visualizar o polje.

Outro problema é a infestação por espinheiras, “que ocupam grandes áreas e tornam perigosa a navegação”.

Em 2005, o polje recebeu o estatuto de Zona Húmida de Importância Internacional, sendo um dos 17 sítios em Portugal reconhecidos pela Convenção Ramsar.

Hoje, está sinalizado internacionalmente a nível académico por ser um exemplo de polje fácil de explicar. “Há excursões com alunos e congressos, porque tem todas as características de manual”, nota José António Crispim.

Apesar do valor geológico, biológico e paisagístico e da classificação Ramsar, a lagoa acaba por ser alvo de agressões e está desaproveitada, o que decorre também do seu caráter intermitente.

“Infelizmente, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas não tem meios nem pessoas. As que tem, não podem chegar a todo o lado”, lamenta o geólogo, realçando que essa questão se estende a todo o PNSAC.

“Tal como o polje, todo o conceito de parque está abandonado. As populações não compreendem o valor e a necessidade de ter um parque”.

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