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Porto Santo, a ilha que recuperou de desastre ecológico e luta contra sazonalidade

O mar do Porto Santo transformado “numa autoestrada, sem os riscos brancos” é a imagem da ‘maré negra’ que atingiu a ilha a 16 de janeiro de 1990 gravada na memória do biólogo madeirense Manuel Biscoito.

A 29 de dezembro de 1989, o petroleiro espanhol “Aragon” verteu no mar cerca de 25 mil toneladas de crude, que dias depois atingiram as costas norte e leste daquela ilha do arquipélago da Madeira.

“Quando vi aquilo pela primeira vez, a imagem que tive foi de uma autoestrada. Apenas faltavam os riscos brancos”, recorda Manuel Biscoito, que foi “recrutado para assessorar cientificamente” a equipa da Marinha Portuguesa especializada em combate à poluição que atuou no local.

O atual diretor da Estação de Biologia Marinha do Funchal lembra que “o cheiro a combustível era intenso e toda a ilha cheirava a gasolina”.

O biólogo considera, no entanto, que “não houve uma contaminação proporcional à dimensão do acidente”, sustentando que “foi uma sorte a ‘maré negra’ ter ocorrido no inverno, pois muitas aves marinhas” não estavam nesta zona do Atlântico.

Atualmente, “o Porto Santo está completamente limpo e recuperado”.

De acordo com este biólogo, “nas baías recortadas, transformadas em coletores, a agitação marítima atirou crude a cerca de dez metros de altura, asfaltando também as rochas ao redor”, obrigando a uma operação de limpeza para a qual “a mobilização foi geral” na ilha.

“Foi recrutada toda a mão-de-obra disponível na ilha”, onde “só se viam pessoas usando os fatos impermeáveis amarelos”, diz, ao mesmo tempo que elogia as centenas de militares, residentes e voluntários que “trabalharam intensamente durante seis meses”.

Também chegou ao Porto Santo “todo o equipamento mais moderno que havia na altura para este tipo de situações”, adianta, referindo, no entanto, que “naquelas condições de difíceis de acessos ao mar, todos falharam e apenas os homens conseguiram chegar onde as máquinas não podiam”.

“Por isso, foi necessário recorrer aos clássicos pá e balde”, reforça.

Manuel Biscoito recorda, ainda, que a maré negra “dava pela cintura” e não esquece o caso do homem que viu “ficar submerso até ao pescoço e a única forma de retirá-lo foi com uma grua, pois aquela pasta [de crude]entrou-lhe no fato”.

Nas operações de limpeza, a grande preocupação era impedir que o crude atingisse a parte sul da ilha e afetasse a praia de areia amarela, considerada o ‘ex-libris’ do Porto Santo, e que todos os dias era revolvida para “recolher as bolinhas que iam ali ficando depositadas”.

“Nunca pensei que fosse possível fazer a época balnear nesse ano quase normal, como aconteceu”, destaca.

O então presidente da Câmara do Porto Santo, o socialista José Góis Mendonça, que “tinha acabado de tomar posse” quando ocorreu o acidente, diz guardar “uma imagem assustadora” da catástrofe.

“Chegava o cheiro a petróleo e era um negrume a vir terra adentro”, vinca, destacando que foram “mobilizados todos os meios disponíveis, desde viaturas a barcos, e a população colaborou dia e noite”.

Góis Mendonça considera que “a tragédia teve duas vertentes”, recordando que foi muito criticado por ter declarado na altura: “Bem-vindo o crude!”.

“Do ponto de vista ambiental foi uma catástrofe. Mas este triste acidente também contribuiu para divulgar a ilha, fez o Porto Santo aparecer nas notícias, trouxe trabalho para toda a gente” e as entidades envolvidas “não punham em causa quanto iam gastar, o que era preciso era limpar”, o que contribuiu para esbater o problema da tradicional sazonalidade.

O ex-autarca conclui que “ainda existem muitos episódios interessantes desta maré negra por contar”, considerando que “o assunto não foi tão bem resolvido [como poderia ter sido]e poderiam ter sido outras as soluções e reivindicações” na sequência do acidente.

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