Fechar
Abrir

Praça do Povo criou nova centralidade no Funchal ao som de protestos

A Praça do Povo, construída no Funchal com inertes arrastados pelo temporal de 20 de fevereiro de 2010, é hoje um espaço muito apreciado pelos madeirenses e palco de diversos eventos, mas o projeto nasceu debaixo de polémica e protestos.

Os resíduos arrastados pela enxurrada tinham sido depositados na praia de calhau rolado junto ao cais da cidade, gerando um enorme aterro, e o Governo Regional, então liderado por Alberto João Jardim, decidiu usar o material para reabilitar toda a zona marginal.

O projeto, a ser erguido com base na Lei de Meios (apoio financeiro disponibilizado pelo Governo da República para a reconstrução da ilha), implicava a construção de um novo cais acostável de 300 metros, a formação de uma única foz para as ribeiras de João Gomes e Santa Luzia, novas proteções marítimas e uma nova praça.

“O Governo Regional fará mesmo o anunciado, grite quem gritar”, avisou na altura Alberto João Jardim, ao mesmo tempo que minimizou o “escarcéu” promovido pelos oponentes do projeto.

A primeira manifestação de peso contra os planos do executivo aconteceu precisamente um ano após o temporal, a 20 de fevereiro de 2011, quando milhares de pessoas formaram um cordão humano na zona onde estavam depositados milhares de toneladas de resíduos.

O organizador da iniciativa, Miguel Sá, disse naquele dia à agência Lusa que o objetivo era “sensibilizar o povo em geral e as autoridades em particular” para retirar o aterro do local e repor a praia de calhau que antes lá havia e, por outro lado, prestar homenagem às vítimas da enxurrada, onde se contabilizaram mais de 40 mortos, seis desaparecidos e centenas de desalojados.

Meses mais tarde, em setembro de 2011, centenas de manifestantes voltaram ao local para protestar, desta vez estimulados pelo movimento “Madeirenses Indignados”, lançado no Facebook pelo geógrafo e investigador Raimundo Quintal.

“Esta foi, de facto, uma sementeira, agora vamos esperar que as plantas cresçam e deem bons frutos”, disse o organizador à agência Lusa, sublinhando que “depois de muitos anos em que há uma pessoa a pensar por todos os madeirenses, o que é importante é que a sociedade civil tome iniciativas”.

A Câmara Municipal do Funchal, na altura liderada pelo social-democrata Miguel Albuquerque, atual presidente do Governo Regional, também chumbou o projeto do executivo de Jardim, nomeadamente a construção do cais acostável.

Os partidos políticos, nomeadamente o CDS-PP e o PS, os maiores da oposição, seguiram o mesmo caminho de contestação.

“É inadmissível” que o Governo Regional esteja a gastar “milhões de euros do dinheiro da República que veio para a Madeira, da Lei de Meios, e dos contribuintes madeirenses, para desconfigurar, descaracterizar a baía do Funchal”, disse o então líder regional do CDS-PP José Manuel Rodrigues.

Por outro lado, Jacinto Serrão, que era o presidente do PS, declarou que o executivo devia “repensar a estratégia” para o aterro de forma “técnica e científica” e não para “satisfazer os interesses de natureza particular colocando o dinheiro da Lei de Meios ao serviço dos mesmos de sempre”.

A Praça do Povo e todo o projeto de “valorização urbanística e paisagística” da marginal pareciam, assim, condenados a ser mal-amados pelos madeirenses e no dia da primeira inauguração parcial, a 07 de novembro de 2014, persistiam as desconfianças, ainda que Alberto João Jardim tivesse realçado que a praça era o “símbolo da esperança” contra as adversidades da vida.

O local, entretanto, transformou-se numa nova e importante centralidade da capital madeirense, onde as pessoas se deslocam para passear, assistir a concertos e espetáculos, paradas militares, cortejos alegóricos e diversos tipos de feiras.

Voltar atrás