Fechar
Abrir
Manuel Sobrinho Simões Manuel Sobrinho Simões Director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto

Privilegiar o interesse público

Manuel Sobrinho Simões
Manuel Sobrinho Simões Director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto

Os últimos trinta anos testemunharam, nas três vertentes do meu pequeno mundo – ensino superior, ciência e saúde –, alterações notáveis, tanto no sentido positivo como, sobretudo,  no último quinquénio, num sentido bastante preocupante. Comecemos pelas boas notícias. O ensino superior continuou, no fim do século passado, o crescimento exponencial iniciado na segunda metade da década de setenta, enquanto a ciência, sob a batuta de Mariano Gago, experimentava, exactamente em 1986, o seu ano zero. A história ulterior do sólido desenvolvimento do tecido científico português é conhecida e só encontra paralelo, em termos de sucesso, no percurso excepcional do Serviço Nacional de Saúde (SNS) de que  todos nos orgulhamos.

A crise económico-financeira e as opções políticas do Governo inverteram a dinâmica do desenvolvimento científico, pondo em risco o que já se havia conseguido e abanaram fortemente o SNS sem no entanto destruírem a sua coerência. O ensino superior, por seu turno, viu-se seriamente enfraquecido e luta, hoje, pela  sobrevivência num patamar de massificação que tem dado cabo de  grande parte da investigação científica universitária.

Não sei como serão os próximos 30 anos mas confesso que estou “ilusionado”, como diriam os espanhóis. Estou convencido que, se reformarmos o sistema de saúde no sentido da clarificação das relações entre público e privado e da diminuição do hospitalo-centrismo (temos de ter menos e melhores hospitais), com melhoria dos cuidados de saúde primários e dos cuidados de saúde integrados (cuidados continuados e paliativos), conseguiremos assegurar a sustentabilidade do SNS.

O ensino superior terá também de se reformar no mesmo sentido, com menos e melhores instituições ligadas em rede e com a progressiva articulação das universidades com os institutos politécnicos. No que diz respeito especificamente à saúde, espero que seja possível institucionalizar a ligação entre as faculdades de medicina e os respectivos hospitais universitários, no âmbito de Centros Académicos de Medicina que incluam os centros de investigação médica e biomédica de qualidade internacional, entretanto criados em Portugal.

A ciência voltará, espero, ao bom caminho, sobretudo se for possível apostar em parcerias público-públicas, para além das desejáveis parcerias público-privadas no domínio do desenvolvimento tecnológico e da inovação.

Sejam quais forem os modelos a seguir no ensino superior, ciência e saúde será necessário privilegiar o interesse público, assegurar o controlo de qualidade e proceder a uma avaliação independente do desempenho. Vamos ver  se conseguimos.

Texto escrito com a ortografia do anterior acordo

Voltar atrás