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Reabilitação ribeirinha de Vila Franca de Xira deu nova vida ao Tejo

A reabilitação ribeirinha em Vila Franca de Xira mudou a vida dos habitantes do concelho e deu uma nova vida ao rio Tejo, que serve hoje de pano de fundo a atividades culturais e de lazer.

A pé, de bicicleta ou de skate, são dezenas as pessoas que quase diariamente cruzam os diversos percursos ribeirinhos do concelho de Vila Franca de Xira, distrito de Lisboa, que têm vindo a ser construídos pela autarquia ribatejana.

No entanto, o contacto próximo com o Tejo, que já se tornou uma rotina para muitos, era há pouco mais de uma década uma realidade muito diferente, uma vez que em vários pontos um conjunto de edificações devolutas e degradadas, que dominavam a paisagem, impediam o acesso ao rio.

“Foi uma mudança quase da noite para o dia. Era um sítio feio e pouco aprazível. Não conseguíamos desfrutar do rio como podemos fazer agora”, afirma à agência Lusa Paulo Ventura, que faz com frequência o circuito ribeirinho, de cerca de três quilómetros, entre as localidades de Alhandra e Vila Franca de Xira.

No final desse circuito, na entrada sul da cidade de Vila Franca de Xira, encontra-se outro dos rostos mais visíveis desta mudança: uma antiga fábrica de descasque de arroz, que já há muitos anos se encontrava degradada, deu lugar a um edifício moderno, que alberga biblioteca, cafetaria, galeria de exposições e auditório.

Inaugurada em 2014, tendo representado um custo de 5,75 milhões de euros, a nova biblioteca de Vila Franca de Xira, batizada de Fábrica das Palavras, já conquistou os moradores da zona ribeirinha que se congratulam com a “fama que trouxe à cidade”.

“Vem muita gente de Lisboa ligada à cultura só para visitar a biblioteca. Depois destas mudanças, Vila Franca de Xira passou a ter mais pessoas e gente mais nova. Para o negócio foi muito bom”, conta à Lusa Luísa Vieira, proprietária de um café localizado junto ao cais da cidade.

A comerciante, de 75 anos, que gere o café Flor do Tejo Bar há meio século, acompanhou todo o processo de reabilitação ribeirinho e apenas critica as alterações realizadas no Jardim Municipal Constantino Palha.

“Julgo que o jardim foi mesmo a pior coisa. Dá a impressão que ficou para segundo plano. Antes tinha muita estatuária e hoje já não tem”, lamenta.

A reabilitação da zona ribeirinha mudou também “radicalmente” a vida dos pescadores da freguesia da Póvoa de Santa Iria da Azóia, que ganharam “casas novas”, mas perderam “privacidade” para exercer o seu trabalho.

“É verdade que as condições são melhores, mas a nossa vida privada terminou. Antes isto era só frequentado por pescadores e pessoas conhecidas e hoje vem cá toda a gente”, conta à Lusa o pescador António Silva.

Já outro pescador, que não se quis identificar, não tem dúvidas em afirmar que “antes era melhor do que agora”: “Isto era nosso e tínhamos as nossas coisas. Hoje se eu quiser arranjar aqui umas redes ou acender um fogareiro já não posso. Estamos muito condicionados”, queixa-se.

No entanto, foi exatamente o objetivo de “devolver o Tejo à população” que levou a Câmara de Vila Franca de Xira a projetar, em 1999, um plano de reabilitação para a zona ribeirinha.

“A grande aposta era levar as pessoas ao rio. Antigamente eram só os pescadores e as grandes empresas que tinham contacto com ele”, explica à Lusa o presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Alberto Mesquita (PS).

Nesse sentido, o autarca refere que desde 2002 foram investidos na reabilitação da frente ribeirinha, com apoio de fundos comunitários, cerca de 27 milhões de euros, dos quais nove milhões saíram diretamente dos cofres da Câmara de Vila Franca de Xira.

“Estamos muito satisfeitos, na medida em que temos um plano de água de rara beleza, que é o rio Tejo, que está pouco cuidado, mas ainda era menos cuidado porque as pessoas nem sequer conseguiam chegar às margens”, argumenta.

Alberto Mesquita sublinha que a autarquia ribatejana almeja não só ter no futuro os 23 quilómetros de margem ribeirinha ligados aos concelhos limítrofes (Lisboa, Loures e Alenquer), mas também contribuir para a limpeza do Tejo e melhorar a sua navegabilidade.

“O rio é uma autoestrada. Nós estamos há dois anos, apesar da competência não ser nossa, a tentar desassorear duas zonas do rio para permitir a náutica de recreio e a atracagem de navios. Queremos que as pessoas venham ao nosso concelho”, afirma.

Contudo, o autarca queixa-se de que o trabalho da autarquia tem sido dificultado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que “tem imposto demasiadas exigências e burocracias”.

“É o parecer disto, é o parecer daquilo. A APA tem-nos desgraçado a vida. Nós estamos a favor do ambiente, de cumprir as regras, mas isto é excessivo”, lamenta.

A Lusa contactou a APA, mas não obteve um esclarecimento da entidade que é responsável por acompanhar e coordenar as políticas ambientais em Portugal.

Enquanto o trabalho de limpeza do rio Tejo não avança, a Câmara de Vila Franca de Xira vai trabalhando, em paralelo, com as Câmaras de Loures e de Lisboa num projeto intermunicipal que pretende criar uma ligação pedonal e ciclovia entre cidade ribatejana e o Parque das Nações.

“Tem havido reuniões entre as câmaras para prepararmos em conjunto uma candidatura a fundos comunitários”, explica o autarca, ressalvando que a grande dificuldade em concretizar o projeto deve-se ao facto de “grande parte dos terrenos necessários serem propriedade privada”.

As intervenções na zona ribeirinha do concelho de Vila Franca de Xira foram desenvolvidas em três fases ao abrigo de programas comunitários de Regeneração Urbana.

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