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Recuperação do Centro Histórico marcou últimos 30 anos de Guimarães

Os últimos 30 anos da vida de Guimarães foram marcados pela recuperação do Centro Histórico, sendo os traços mais vincados a classificação pela Unesco, em 2001, e a nomeação como Capital Europeia da Cultura, em 2012.

Iniciado na década de 80 do século passado, “mais ano menos ano, mais pedra à frente, mais pedra atrás”, o projeto daquela que viria a ser a nova “marca identitária” da cidade, aliada ao carimbo de “berço na nação”, foi “mal acolhido” e encarado como um “grande erro” por muitos, admite à agência Lusa o ex-autarca vimaranense António Magalhães, um dos impulsionadores da recuperação do Centro Histórico.

Para a arquiteta que iniciou a recuperação, Alexandra Giestas, foram três os “pilares da estabilidade” do projeto, que “muito deve” à visão do arquiteto Fernando Távora: vontade política, participação pública e “gesto de desenho”.

“Muitos, mesmo cá dentro, achavam que éramos malucos por quereremos aproveitar uma coisa que estava velha, a cair. Havia projetos, mesmo políticos, que apontavam o caminho seguido por muitos municípios aqui à volta, que era aderir ao modelo de explosão da construção e destruir tudo. Não era a nossa visão”, explica António Magalhães.

O estado de conservação do Centro Histórico era “em tudo degradado”, descreve o autarca. “Era degradação cívica, física, social. Não era um sítio recomendável a todos os níveis. Era preciso intervir e foi o que fizemos. A par da intervenção física, avançámos com a intervenção cultural e isso foi fundamental para o que veio depois”, salienta.

“O início não foi fácil. Ainda não havia fundos para este tipo de visão, fomos pioneiros. E a própria população não entendia o que queríamos ali fazer. Só quando entenderam que antes de tudo queríamos melhorar as condições de vida daquela gente é que ganhámos a população para o nosso lado”, lembra o autarca.

O trabalho conjunto com a população foi, segundo Alexandra Giesta, essencial. “Fizemos uma recuperação com as pessoas lá dentro. Elas tinham medo que as tirássemos de lá e tivemos de explicar que ali não ia haver uma ditadura da arquitetura. Quando percebiam isso, elas mesmo diziam que tinham de tirar as janelas de alumínio porque não ficavam bem. Mas não foi fácil”, diz.

Não foi fácil, mas foi feito e deu frutos.

“Quando percebemos o que tínhamos aqui, algo inédito no país, que serviu de exemplo, que foi visitado por especialistas de todo o mundo, soubemos qual era o passo a dar, a Unesco. Mais uma vez não foi fácil, mas conseguimos que, em 2001, o Centro Histórico fosse classificado como Património da Humanidade”, vinca o autarca.

Entre 2005 e 2006, foi dado o passo seguinte, “porventura, o mais difícil” para António Magalhães. “Ainda havia muito a fazer. Foi muito duro, mas tínhamos, mais uma vez, algo único, o património arquitetónico e um ambiente cultural associativo único. E conseguimos”, explica o autarca, lembrando o anúncio de que Guimarães seria Capital Europeia da Cultura em 2012.

Para quem vive no Centro Histórico, há um “misto” de sentimentos: “Lembro-me bem como isto era. Era feio. E nós éramos apontados por viver aqui, era pior que um bairro social. Agora querem as nossas casinhas para essas coisas modernas de pensões pequeninas. Mas são nossas”, confidencia à Lusa Ana Moita, 83 anos.

Temos tudo muito bonito, temos o saneamento que não tínhamos, temos comércio, turistas. Mas também temos mais barulho e limitações. Não podemos fazer o que queremos com as nossas casas. Mas até nem é mau, há muita gente com mau gosto e ia estragar isto tudo”, diz, a sorrir.

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