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S. João da Madeira e a vida, morte e renascimento da Oliva

Célebre pelas máquinas de costura, a Oliva empregou milhares de pessoas nos anos 70 do século passado, mas fechou falida em 2010, após o que a autarquia recuperou os principais edifícios para reafirmar a marca em novas áreas económicas.

A empresa de S. João da Madeira, que teve várias designações ao longo dos anos, nasceu em 1925 com 20 funcionários e em 1973 contava com 3.363.

De uma unidade com 2.700 metros quadrados evoluíra para um complexo industrial com 90.000, linha férrea interna e um catálogo em que se incluíam produtos como fogões, banheiras, tubos de aço, motores e as máquinas de costura que destronaram as da Singer.

Casimiro Lemos serviu a casa de 1960 a 1994 e diz que “a Oliva era uma escola”, onde as chefias demonstravam consciência social e incentivavam a progressão dos operários.

“Quando lá entrei tinha só a quarta classe, mas aos 37 anos fui ter aulas à noite. Acabei como diretor do Centro de Cultura e Desporto da Oliva e ainda fui fundador da Cooperativa 11 de Outubro, que construiu 173 casas para pessoal da fábrica”, lembra.

Castro Almeida, que presidiu à Câmara de S. João da Madeira de 2001 a 2013, recorda que a reputação da marca chegava mesmo às crianças: “Na escola primária, os alunos mais importantes eram os filhos de trabalhadores da Oliva, porque os pais tinham bom salário e eles ainda recebiam prendas da empresa”.

“A fábrica também tinha serviços médicos e sociais, e um supermercado mais barato para funcionários. Era, de facto, a imagem do esplendor e poderio económico de S. João da Madeira”, afirma Castro Almeida.

“O declínio chegou com o 25 de Abril”, diz Isaías Santos, que trabalhou na empresa de 1966 a 2007 e integrava o Sindicato dos Metalúrgicos de Aveiro. “A Oliva já tinha sido vendida à [norte-americana] ITT e, como eles tinham fama de não gostar muito de democracia, a partir de 1974 foram lentamente despedindo pessoal”, afirma.

A marca ainda regressaria a acionistas nacionais, mas não evitaria a quebra nas vendas e na reputação, depois de o seu novo administrador, João Cebola, se tornar em 1998 o primeiro empresário português condenado a prisão efetiva por evasão fiscal. Retivera 108.000 contos em IVA (540.000 euros), mas Casimiro, Isaías e muitos outros nunca lho levaram a mal. “Deixou de pagar ao Estado para poder pagar aos trabalhadores”, justificam.

Quando a fábrica encerra, em 2010, deixa 180 homens no desemprego e os seus principais imóveis na Câmara, que um ano antes os adquirira por 2,5 milhões de euros. “S. João da Madeira não podia perder esse património e era útil reintroduzir atividade industrial na zona, para ela não se tornar mais uma área habitacional”, avalia Castro Almeida.

Após uma requalificação de dois milhões de euros, o edifício com a torre da Oliva passou a acolher o Welcome Center do Turismo Industrial. Com nove milhões de euros, o dos fabricos gerais deu origem à Oliva Creative Factory, que inclui incubadora de indústrias criativas, lojas e museu.

Ricardo Figueiredo é quem hoje preside à autarquia e reconhece que a zona já não exibe “o mar de gente de antigamente”, com sirenes fabris a marcarem as horas de ponta e a Estrada Nacional 1 “cheia de fatos-macaco azuis em [motas]Florett e Jawa”, mas garante que a marca renasceu.

“A Oliva tem agora uma coleção de arte contemporânea que é das melhores do país e uma de arte bruta que é das melhores do mundo. Com o Turismo Industrial, isso ajudou a que as pessoas passassem a vir cá especificamente para fazer turismo, quando antes só vinham a negócios. E a marca tem ainda a sua incubadora, com 35 empresas e uma ligação muito eficaz às indústrias tradicionais e tecnológicas”, realça.

Tiago Correia é gestor de uma dessas empresas, a AndIwonder, e acredita que a Oliva contribuiu para que, no segundo trimestre de 2016, a sua produção de calçado personalizável já tenha superado o volume de negócio de todo o ano de 2015.

“O aluguer é de baixo custo e há aqui muito know-how. Como temos produção exclusiva em pequenas quantidades, se fôssemos pedir determinados trabalhos a outro local nem se cansavam connosco, mas aqui, se precisarmos de ‘glitter’ numa sola ou algo assim, todos estão disponíveis, porque percebem o nosso conceito e partilham da nossa mentalidade”, assegura.

Isaías Santos já teve vários convites para visitar a renovada Oliva, mas tem-nos recusado todos. “Evito passar lá. Sei que está tudo limpinho e bonito, mas eu queria é que estivesse tudo sujo e com os trabalhadores lá dentro. Como antes aquela rua era uma lufa-lufa e agora parece-me sempre um deserto, não quero apagar a imagem que tenho do que aquilo era”, confessa.

Casimiro gere melhor as memórias: “Dá-me consolo descer pela estrada, olhar para a torre e vê-la toda arranjada outra vez, com as letras iluminadas”. Partilha com Castro Almeida “a pena” de ainda não ver horas certas no relógio do edifício, mas consegue rir-se de si próprio ao olhá-lo e dizer: “Está ali a fábrica do meu matadouro! É assim que mato saudades da melhor fase da minha vida”.

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