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Salto tecnológico e ambiental projetam curtumes e fazem de Alcanena “capital da pele”

Uma “enorme evolução tecnológica” marcou nas últimas décadas a indústria de curtumes, que se concentra quase na totalidade em Alcanena, concelho que “sofreu as agruras” ambientais de um setor que investiu para “limpar” essa “mancha” na sua imagem.

“Se compararmos o que o setor é hoje com o que era há 30 anos, o fosso é enorme”, diz à Lusa Alcino Martinho, diretor-geral do Centro Tecnológico das Indústrias do Couro (CTIC), estrutura criada na década de 1990 para responder à necessidade das empresas de evoluírem e se diferenciarem, apoiando-as no desenvolvimento de produtos, na inovação e na resposta às crescentes exigências de qualidade.

Esta evolução fez-se também sentir na área ambiental, com investimentos num sistema “que nem sempre funcionou da melhor maneira”, como o milhão de euros, “sem apoio público”, de melhorias na Estação de Tratamento de Águas Residuais, entre outros, que, segundo Alcino Martinho, permitem afirmar que a questão “está minimizada por muitos anos”.

A preocupação ambiental, parâmetro tido em conta em mercados exigentes, entrou no próprio processo produtivo, com uso de produtos menos nocivos ao ambiente, como solventes de base aquosa, a recuperação e reutilização daquele que era apontado como o mais nocivo – o crómio (usado no curtimento da pele) – e a redução do volume de água no processo, com a consequente menor descarga de efluentes.

“Tem-se dado preferência a processos que não usam crómio nem produtos nocivos para a saúde e o ambiente. Há uma grande preocupação” em cumprir “os exigentes cadernos de encargos das marcas” que consomem as peles portugueses, entre as quais se encontram empresas internacionais de moda, do automóvel e da aeronáutica.

“O sistema de controlo de produtos químicos que as empresas estão a cumprir corresponde ao que de mais avançado existe”, assegura.

As condições criadas em Alcanena levaram a que atualmente se concentre aí entre 90% a 95% da produção nacional de curtumes, salienta.

Nascida no seio do grupo Nunes de Carvalho, que lançou a sua primeira fábrica em Alcanena em 1939, a Couro Azul, criada no final da década de 1980, é um exemplo da aposta nas novas tecnologias, na inovação, em recursos humanos qualificados e no uso de produtos ecológicos, com várias certificações internacionais, contando entre os seus clientes com marcas de automóveis, sobretudo alemãs, empresas aeronáuticas e de comboios (como os de alta velocidade espanhóis).

“Apesar de o setor ter perdido dimensão – é indesmentível que hoje produz menos que há 20 anos – e de ter menos emprego, embora muito mais especializado e com mais técnicos jovens, é verdade que está hoje muito mais internacionalizado e com capacidade de diversificar para outros segmentos”, diz à Lusa Pedro Carvalho, presidente da Couro Azul, empresa que “entrou em mercados muito competitivos e com um nível de exigência mais elevado”.

“O setor é hoje muito diferente do que era há 20, 25 anos”, altura em que toda a produção era consumida internamente pelo calçado. “A deslocalização do calçado nos anos 1990 obrigou os curtumes a reverem a sua estratégia”, seguindo as empresas que se deslocalizaram para a Europa de Leste e para a Ásia e procurando novos mercados, afirma.

Pedro Carvalho realça o facto de em Alcanena existir “o único verdadeiro ‘cluster’” em Portugal, o que se explica por esta ser “a única zona do país onde existe um conhecimento profundo [da profissão], que passa de geração em geração”, refletindo-se nos recursos humanos disponíveis, que classifica como “um capital da região”.

A este fator acrescenta a existência do CTIC, uma infraestrutura tecnológica que serve todo o setor, do sistema ambiental “alargado e completo” para o conjunto das indústrias e de um conjunto de empresas especializadas, desde a manutenção dos equipamentos ao fornecimento dos químicos.

Com um volume de negócios anual que ronda os 300 milhões de euros e uma quota de exportação de 40% da produção, as cerca de meia centena de empresas existentes no concelho geram perto de 3.000 empregos (diretos e indiretos), tendo o peso e a tradição do setor levado o município a assumi-lo como imagem de marca, registando o nome de “Alcanena Capital da Pele”.

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