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Santarém continua na lista da UNESCO, mas Património Mundial saiu da agenda

A candidatura de Santarém a Património da Humanidade continua na lista indicativa da UNESCO, onde foi inscrita em 1996, mas poucos acreditam que o projeto que mais polémica gerou nas últimas décadas possa ser retomado.

Assunto “quente” na década de 1990, com apaixonados debates entre defensores e críticos, o projeto foi a grande bandeira dos quase dez anos de mandato do socialista José Miguel Noras à frente da Câmara Municipal de Santarém.

“A ideia era despertar culturalmente a cidade e o património” e “fixar população numa cidade que estava envelhecida”, diz à Lusa Jorge Custódio, o historiador convidado por Noras para liderar o “Projeto Municipal Santarém a Património Mundial”, estrutura criada em 1995 e extinta em 2002, pouco depois da liderança da autarquia passar para o também socialista Rui Barreiro.

Já quase sem resquícios do que levou Almeida Garrett a referir-se a Santarém como o “livro de pedra em que a mais interessante e a mais poética parte das nossas crónicas está escrita”, devido à “destruição” e “vandalismo” de tremores de terra, como os de 1531 e 1755, das Invasões Francesas e dos erros urbanísticos, a ideia da candidatura não era, segundo Jorge Custódio, recuperar o passado, mas sim pensar e projetar “a cidade do futuro”.

A candidatura formalmente entregue ao Governo português em 1998, durante uma deslocação do então ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, a Santarém – momento marcado pela exigência do regresso à cidade do património levado para Lisboa no século XIX -, acabou por receber um “balde de água fria” quando, no início de 2000, a cidade foi visitada por um perito do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios, organização de consultoria da UNESCO.

Ao afirmar que Santarém “não pode ser considerada como tendo um valor universal excecional”, o relatório que resultou dessa única visita levou à suspensão da candidatura e a uma reformulação, realizada ao longo de 2001.

Se, originalmente, a candidatura partira da convicção da “singularidade de estarem presentes nos monumentos escalabitanos exemplares notáveis da arquitetura e da arte de todas as fases do Gótico”, procurava agora aliar o centro histórico à paisagem, associando o núcleo histórico situado no planalto ao Tejo e à Lezíria, com o envolvimento dos municípios vizinhos de Almeirim e Alpiarça.

José Miguel Noras não poupou na altura críticas ao então embaixador de Portugal em Paris e ao Governo socialista, que propôs à UNESCO a paisagem vinhateira da ilha do Pico em detrimento das propostas de Santarém e Marvão. E, com o novo executivo autárquico, a candidatura reformulada (com parecer negativo dos comerciantes do centro histórico) parou, não tendo o assunto voltado à agenda política.

Localmente, as críticas à candidatura, assumidas sobretudo pela CDU, que lhe retirou apoio em 2001, iam da alusão a ter-se limitado à investigação histórica, a ter desviado verbas de infraestruturas fundamentais, como o saneamento (com implicações, nomeadamente, na derrocada das barreiras da cidade), até à inexistência de qualquer esforço de reabilitação, em coerência com a pretensão de classificação, numa cidade descaracterizada por “graves erros urbanísticos”.

Jorge Custódio admite que a pressão do “boom construtivo” que vinha de trás se manteve, mas garante que a candidatura criticava a “obra atomística” e que procurou criar “estruturas” para que se revertesse a ausência de “visão de cidade” e se iniciasse a reabilitação do centro histórico, o que, na sua ótica, teria acontecido se José Miguel Noras tivesse exercido mais um mandato.

“A candidatura era muito difícil, sempre tivemos consciência disso”, declara.

“Apesar do grande afastamento das pessoas e dos muitos erros, foi um momento áureo, de muita discussão e participação cívica, de grande esperança de que a cidade voltaria a recuperar o que foi quando era reconhecida como capital do Ribatejo”, diz à Lusa Maria Emília Pacheco, que à época liderava a Associação de Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural de Santarém.

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