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Santo Tirso procura 18 anos depois sarar ferida que Trofa a concelho criou

A criação do concelho da Trofa, em 1998, tirou oito freguesias a Santo Tirso, mas essa decisão administrativa não significou “apenas perda de população ou área”, mas, para muitos, também “feriu de morte” a capacidade negocial da região.

São Martinho e Santiago de Bougado, Covelas, Muro, Alvarelhos, Guidões, São Romão e São Mamede do Coronado foram as freguesias que se desagregaram do concelho de Santo Tirso para fundar a Trofa. Reuniam o conjunto de requisitos previstos na lei-quadro de criação de municípios, dado terem 72 quilómetros quadrados (a lei previa pelo menos 30) e 28.500 eleitores (15.000).

Mas para quem governa e governou Santo Tirso, a elevação da Trofa a concelho não passou de uma “birra” que aproveitou “uma lei mal feita” e “propósitos políticos”, condicionando o futuro da região.

“Vivia-se num equilíbrio entre Santo Tirso, Famalicão e Guimarães. E ao criar o concelho da Trofa foi retirada uma fatia muito significativa no que diz respeito à competitividade intermunicipal. Toda a região sofreu com a situação. Perdeu tudo isso [população, empresas e prestígio] e perdeu, sobretudo, capacidade de influência”, diz à agência Lusa o presidente da Câmara de Santo Tirso, Joaquim Couto.

O autarca socialista presidia a Santo Tirso em 1998 quando a luta a favor e contra a elevação da Trofa estalou. Saiu em 1999 para dar lugar a Castro Fernandes, também eleito pelo PS, e regressou em 2013.

Também Castro Fernandes tem opinião idêntica sobre as consequências deste processo que tem 18 anos mas continua a arrastar-se em limites não definidos, toneladas de processos por resolver e acusações de parte a parte sobre quem deve dinheiro a quem.

Castro Fernandes – para quem a “coligação anómala” do PSD, CDS-PP e PCP “decepou” Santo Tirso – recorda que por altura da elevação vivia-se a “decadência” do têxtil, setor cujas fábricas ficaram do lado de Santo Tirso, enquanto na Trofa estavam indústrias com “grande potencial”.

“Santo Tirso era o 15.º ou 16.º concelho do país em 1998. Agora deverá ser 50.º/55.º ou mais. Ao perder um terço do seu território, perdeu um terço das suas potencialidades”, refere Fernandes, acrescentando que o concelho “demorou dez anos a recuperar”.

A verdade é que entre Santo Tirso e Trofa existe ainda, e segundo a expressão do ex-autarca, “um terreno de ninguém”. Para o presidente à época da divisão e também atual, “a separação, o divórcio, estão feitos, mas falta fazer as partilhas”, algo que à falta de consenso entre as duas autarquias acabará discutido em tribunal.

Em 2010, as câmaras fizeram um acordo no Tribunal de Penafiel, na prática uma sentença judicial, que definiu limites provisórios, mas o mapa, a carta geográfica oficial, essa nunca foi aprovada pelo parlamento. O Estado teve de pagar no mandato de José Sócrates 7,5 milhões de euros à autarquia de Santo Tirso por “prejuízos causados” com a elevação da Trofa a concelho. A Câmara pedia 76 milhões, mas só o facto “inédito de um Estado ser multado a pedido de uma câmara” satisfaz, por lhe “dar razão”, Santo Tirso.

Em 2001, Santo Tirso e Trofa decidiram integrar a Área Metropolitana do Porto (AMP) por considerarem estar mais próximos desta estrutura do que do Ave.

Joaquim Couto vê nesta decisão um “salto qualitativo”, mas vai mais longe: “Se o concelho de Santo Tirso como ele existia [com a Trofa e não separado]tivesse passado para a AMP seria um dos grandes entre os grandes. Agora Santo Tirso e Trofa separados são pequenos entre os pequenos ou médios, no máximo”, conclui.

As freguesias que agora formam a Trofa representavam para Santo Tirso cerca de 35% do seu território. O concelho passou de mais de 100.000 habitantes para 78.000.

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