Fechar
Abrir

Setúbal, onde o ‘Bispo Vermelho’ pregou contra a fome e o desemprego

Nomeado bispo de Setúbal em 1975, Manuel Martins ganhou o epíteto de ‘Bispo Vermelho’ pela defesa dos mais desfavorecidos durante a crise económica do distrito, no final daquela década e início dos anos 80 do século passado.

“Nasci Bispo em Setúbal, agora sou de Setúbal”, disse no dia da ordenação episcopal aquele que foi o primeiro bispo da diocese – criada a 16 de julho de 1975, em pleno `Verão Quente´ do Processo Revolucionário Em Curso (PREC) – e que acabou por se tornar uma voz incómoda para o poder político da época.

Antigo governador civil e presidente da Câmara de Setúbal, Mata Cáceres, diz que Manuel Martins “soube compreender a realidade de Setúbal”.

“D. Manuel Martins fez uma boa análise e teve uma boa compreensão social da diocese. Era uma sociedade muito marcada pela esquerda, e até pela extrema-esquerda, e ele não deixou de fora essa análise política, que era importante para ele, uma vez que, do meu ponto de vista, o PS e o PSD, concordando ou discordando, nunca iriam discordar publicamente do bispo”, recorda o antigo autarca.

“Em 1983 [enquanto governador civil], propus ao Governo que tomasse algumas medidas, porque o desemprego, as fábricas a encerrar e até a fome começavam a fazer-se sentir. E o bispo de Setúbal, nesse aspeto, deu-me um grande auxílio, porque era uma voz que diariamente se levantava contra essas situações e daí que o Governo começasse a estar mais sensibilizado, quer pela sua própria vontade, quer pela pressão que sentia do bispo”, diz.

Para Mata Cáceres, que acompanhou de perto a intervenção do prelado, Manuel Martins “foi uma grande figura que, além de cuidar da sua igreja, não deixou de cuidar do povo que ele, do ponto de vista cristão, representava no distrito, e abriu um grande espaço à Igreja, não só em Setúbal mas em todo o país”.

Atual presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca também recorda como Manuel Martins – apesar da desconfiança inicial pela nomeação de um “bispo originário do Norte, à época considerada a região mais reacionária do país” – ganhou o respeito dos setubalenses ao partilhar o sofrimento dos mais desfavorecidos, quando a crise do setor industrial na região provocou uma elevada taxa de desemprego, na ordem dos 20 por cento.

“A sua constante presença nas paróquias e o contacto direto com o povo, nas ruas, nos cafés, nas coletividades e em diversas organizações representantes de operários e pequenos empresários, depressa o fez ver que as consequências da crise estavam a atingir, dramaticamente, muita da sua gente”, sublinha.

Como recorda Eugénio Fonseca, “vendo que o Governo não só nada fazia como até, vergonhosamente, negava a realidade, Manuel Martins avançou com a criação de um Fundo Diocesano de Solidariedade, que recebia donativos de diversas partes do país e de países estrangeiros, e que eram distribuídos pelos mais necessitados sem burocracia”.

“Tanta fome foi mitigada, tanta casa não entregue aos credores, tantos medicamentos pagos, tantos estudos, desde o básico ao universitário, assegurados”, lembra Eugénio Fonseca, assegurando que Manuel Martins “continuou a gritar, cada vez mais alto, porque o Governo parecia cada vez mais surdo ao clamor de tanta desgraça”.

“Até que o poder nacional e local teve de render-se. Foi criado o Fundo de Emergência, gerido, inicialmente, pelo governador civil Mata Cáceres, a quem se seguiu a singular Irene Aleixo, que deu forte incremento a esta medida social. Depois surgiu a ideia de uma Operação Integrada de Desenvolvimento para a Península de Setúbal (OID), que contribuiu, decididamente, para a recuperação da região”, acrescenta, convicto de o sofrimento da população do distrito teria sido maior sem a intervenção do bispo.

Para Manuel Martins, desses primeiros anos da sua passagem por Setúbal ficou um sentimento de dever cumprido e a convicção de que deu o seu melhor na luta pelas causas dos mais desfavorecidos.

“Quando cheguei a Setúbal, levava uma recomendação muito importante do bispo de Porto, António Ferreira Gomes, que me disse para tentar não aparecer como colonizador, para procurar mergulhar em Setúbal, ser de Setúbal, ser Setúbal. E, felizmente, isso aconteceu-me”, recorda Manuel Martins, enquanto partilha algumas histórias desses tempos conturbados.

Um dia “aconselhei um grupo de retornados a reocupar as casas inacabadas de onde tinham sido despejados pouco antes, dizendo-lhes que não lhes poderia acontecer pior do que estarem a viver na rua. Eles voltaram a ocupar as casas e o problema acabou por se resolver algum tempo depois”, diz, lembrando também, entre outros, um episódio de troca de palavras com o então primeiro-ministro Mário Soares.

“O Governo de Mário Soares dizia publicamente que em Setúbal não havia fome, que o bispo de Setúbal é que fazia fome. A comunicação social não me largava e um dia eu respondi dizendo que `se a fome era Nafarros e Belém, podíamos dar graças a Deus porque em Portugal não havia fome´”, lembra.

Existia mesmo “fome em Setúbal”, assegura o ‘Bispo Vermelho’ que, pela sua ação, é considerado um dos principais responsáveis pela ação que a igreja católica continua a ter na região de Setúbal, designadamente no apoio social aos mais pobres e excluídos.

Voltar atrás