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Têxtil de Vouzela fecha e obriga trabalhadores a ‘renascerem’ noutras áreas

O fecho da Vouga-Têxtil, em 2002, atirou cerca de 300 pessoas para o desemprego, que se viram obrigadas a ‘renascer’ para outras áreas de forma a minimizar os problemas sociais em que tinha mergulhado o concelho de Vouzela.

O ano de 2002 começou negro para o pequeno concelho de Vouzela, no distrito de Viseu, que via a maior empregadora do concelho – a Vouga-Têxtil – fechar portas a 300 trabalhadores que estavam já há alguns meses com salários em atrasos.

Telmo Antunes tinha chegado há pouco mais de uma semana à presidência da Câmara de Vouzela, quando reuniu pela primeira vez com a Comissão de Trabalhadores daquela fábrica de confeções e com o Sindicato dos Trabalhadores do Setor Têxtil da Beira Alta, que o colocaram a par dos receios e das dificuldades por que passavam 300 famílias.

“Foi um processo muito complicado, passei três meses em contactos e a tentar negociações com interessados em pegar naquela fábrica, mas era tudo muito complicado: a empresa estava num nome, os trabalhadores afetos a outra e a maquinaria ainda no nome de outra empresa. Acabei por deitar a toalha ao chão e passar à fase seguinte, que passava por procurar que os trabalhadores recebessem, o mais depressa possível, o fundo de garantia social”, recorda.

Volvidos 14 anos, Telmo Antunes não consegue esconder a emoção que sente em abordar a questão de um encerramento que “ainda hoje tem consequências no concelho de Vouzela”.

“Uns mudaram de concelho após serem despedidos, outros emigraram ou foram para a reforma antecipada. A maioria criou o seu próprio negócio ou mudou de área de atividade. Teve mesmo de ser assim, porque havia famílias inteiras a trabalhar naquela fábrica”, refere.

De acordo com o ex-autarca, apesar do “período negro” por que passou o concelho e centenas de famílias, “também se registou alguma emergência positiva”.

“Alguns concretizaram os seus sonhos depois deste mau momento e criaram o seu próprio negócio, abriram a sua loja. Temos mesmo um antigo funcionário da Vouga-Têxtil que passou para a fotografia e é um nome reconhecido nesta área profissional”, afirma.

João Cosme tinha 31 anos quando a fábrica onde trabalhava desde os 22 anos faliu e o atirou para o desemprego.

“Foi um período muito complicado, sempre que ouço notícias semelhantes nas televisões é impossível não me emocionar, porque sei bem pelo que estão a passar. No meu caso, aproveitei o período em que estive no desemprego para me mexer no mundo da fotografia de natureza e vida selvagem, de forma a tentar a minha sorte numa área pela qual já tinha muito gosto”, explica.

Catorze anos depois é fotógrafo profissional, na área da natureza e da vida selvagem, já arrecadou alguns prémios e publica em revistas como a Visão ou ‘National Geographic’.

“Se a Vouga-Têxtil não tivesse ido à falência, provavelmente ainda lá estaria, a trabalhar no armazém de matérias-primas. Com o seu encerramento, tive de me mexer e acabei por concretizar o sonho de ser fotógrafo profissional de natureza e vida selvagem”, lembra.

Também para ele, as consequências do encerramento daquela fábrica ainda hoje estão bem vincadas nas ruas da vila de Vouzela.

“Antigamente, via-se muito movimento nas ruas da vila aos finais do dia. Hoje, a partir das 17:00, as ruas ficam praticamente desertas”, lamenta.

O atual presidente da Câmara de Vouzela, Rui Ladeira, estima que cerca de 80 por cento das pessoas que ficaram desempregadas com a falência da Vouga-Têxtil regressaram ao mercado de trabalho e que a fase difícil já passou.

“Ainda olhamos para trás com algum saudosismo, porque tivemos no concelho uma das referências nacionais da área têxtil. Mas, naturalmente que se teve de virar a página e encontrar novas soluções”, sublinha.

Rui Ladeira frisa que o município que lidera tem vindo a procurar cativar algum investimento para os seus três parques industriais: Vouzela, Campia e Queirã.

“Nestes últimos dois anos e meio temos conseguido firmar compromisso com duas dezenas de empresas que vão propiciar a criação de riqueza e fixação de pessoas em Vouzela”, conclui.

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