Fechar
Abrir

Tragédia de Entre-os-Rios chocou o país, mas luto perdura em Castelo de Paiva

A queda da Ponte Hintze Ribeiro, no dia 04 de março de 2001, provocando a morte a 59 pessoas, deixou o país em choque e marca Castelo de Paiva com tons de um luto que perdura, 15 anos depois.

Por estes dias, na margem esquerda do Douro, no pequeno concelho do norte do distrito de Aveiro – onde residia a maioria das vítimas -, ao recordar a tragédia, uns estremecem, outros remetem-se a um silêncio perturbador. E também há os que, inconformados com o rumo da história, se queixam de não ter sido feita justiça.

“Há famílias que ainda não fizeram o luto”, vinca Eliana Moreira, vice-presidente da Associação dos Familiares das Vítimas da Tragédia de Entre-os-Rios.

Emocionado, o presidente da Câmara de então, o social-democrata Paulo Teixeira, diz à Lusa ter sido um momento que “marcou para sempre” a sua vida “nesta passagem terrena”.

Também o atual chefe do executivo municipal, o socialista Gonçalo Rocha, recorda “um momento muito trágico e cruel para todos”.

“Inacreditável. Nem no pior pesadelo aconteceria um acidente daqueles”, exclama.

Naquele princípio de noite de um chuvoso 04 de março, o país foi confrontado com a queda do tabuleiro da ponte centenária, arrastando para as águas agitadas do Douro um autocarro, onde seguiam 53 passageiros, e três automóveis, com seis pessoas. Não houve sobreviventes.

Nos dias seguintes, as televisões mostraram, muitas vezes em direto, ao país e ao mundo, a dimensão da tragédia e o fracasso no resgate dos corpos, angustiando todo o concelho.

“Foi um processo muito vivido e sentido”, recorda Paulo Teixeira, elogiando o apoio que recebeu de António Guterres, o primeiro-ministro de então.

O sofrimento dos familiares, que resiste até hoje, comoveu Portugal.

“Continuo a sentir um imenso vazio. Sei que existem outras famílias que perderam familiares e que ainda não esqueceram este drama”, afirma a representante da associação, acrescentando: “Os meus pais continuam a ir ao memorial, com se fossem ao cemitério”.

No concelho, conta à Lusa o pároco local, Arlindo Rafael, muitos familiares tiveram de recorrer  a apoio psicológico e familiar. Apesar disso, “com o passar do tempo, as pessoas tiveram de refazer as suas vidas”.

Sobre o sofrimento dos que ficaram, o atual presidente da câmara assinala: “Foi uma situação verdadeiramente dramática, com repercussões violentíssimas para várias famílias do concelho, que ainda hoje perduram na sua reserva familiar”.

O sentimento de injustiça é outra marca dolorosa que se observa na localidade, nos que lá moram ou têm responsabilidade política.

Paulo Teixeira lastima, ainda hoje, que não tenham sido apuradas responsabilidades criminais.

“Quando os arguidos que foram levados a julgamento não foram os responsáveis de não se ter construído uma ponte nova em tempo útil, o resultado final deste processo judicial era fácil de prever. A culpa ia morrer solteira”, lamenta.

Os familiares ouvidos pela Lusa também criticam o desfecho do processo judicial.

“Não foi feita justiça. O processo arrastou-se e não se apuraram responsabilidades”, afirma Eliana Moreira.

O atual autarca concorda: “Como é óbvio, respeito todas as decisões judiciais. Mas, no caso em concreto, a decisão enquadrou-se na conhecida máxima popular de que a culpa morreu solteira e aplica-se bem ao desfecho desta tragédia”.

Após a tragédia, os “políticos de Lisboa”, por entre lamentos, fizeram promessas sobre a urgência de determinadas obras no concelho, umas cumpridas entretanto, como a nova ponte, construída em tempo recorde, outras que nunca saíram do papel, como a conclusão da variante à Estrada Nacional 224 e o Itinerário Complementar 35.

Quinze anos depois do maior infortúnio de Castelo de Paiva, os dois autarcas, inconformados, ouvidos pela Lusa, lamentam que as duas obras tenham sido “esquecidas e adiadas” pelos sucessivos governos.

Voltar atrás