Fechar
Abrir
Carlos Fiolhais Carlos Fiolhais Professor de Física da Universidade de Coimbra

Trinta anos de Ciência em Portugal

Carlos Fiolhais
Carlos Fiolhais Professor de Física da Universidade de Coimbra

O sistema de ciência e tecnologia desenvolveu-se extraordinariamente em Portugal a partir da nossa entrada na Comunidade Europeia, hoje União Europeia,  em 1986 (ano que foi também o da fundação da agência nacional de notícias, a LUSA). Uma data assaz relevante nesse desenvolvimento foi 1995, quando foi criado o Ministério da Ciência e Tecnologia, cujo primeiro titular foi José Mariano Gago, e logo a seguir foram criadas uma agência de financiamento da ciência, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, e uma agência para a cultura científica e tecnológica, a Ciência Viva, nas décadas de 1990 e 2000, as duas até hoje muito activas. É justo sublinhar o papel que Mariano Gago, infelizmente falecido há menos de um ano, desempenhou no desenvolvimento da ciência nacional, de 1995 a 2011, com um curto intervalo entre 2003 e 2005. Convicto que a ciência era um trampolim para o desenvolvimento, tanto material como imaterial, ele colocou a ciência na agenda política, lugar de onde ela nunca mais saiu. Promoveu a ciência, nunca se esquecendo que a ciência tem de chegar à sociedade e de se tornar parte da cultura.

Para verificar como o sistema português de ciência e tecnologia cresceu, basta consultar a PORDATA, base de dados de Portugal contemporâneo da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O investimento em investigação e desenvolvimento subiu de um modo consistente de 0,4% do PIB desde 1986, quando Portugal entrou na Comunidade Europeia, para 1,6% em 2009 (usa-se este ano como referência pois no ano seguinte começou um retrocesso, em 2014 estava em 1,3%). Foi um investimento que trouxe resultados mensuráveis.  Dois bons indicadores desses resultados são o número anual de novos doutorados formados e o número de novas publicações científicas. Em 1996 obtiveram o diploma de doutor 216 pessoas, mas em 2016 já foram 2668, num crescimentos sempre constante. O número de publicações científicas em revistas indexadas, que era de 664, passou para 19291 em 2013, também em crescimento ininterrupto. Se o investimento em ciência e tecnologia subiu quase quatro vezes, os índices de resultados subiram muito mais: o número de novos doutores foi multiplicado por doze e o número de publicações por 29. Poucas coisas subiram tanto em Portugal em tão pouco tempo, aproximando-se dos padrões europeus! É certo que tal foi conseguido em grande graças à disponibilidade de fundos europeus. Mas, se, noutros sectores, os dinheiros europeus poderão ter sido mal gastos, a pequena percentagem investida na ciência forneceu resultados inequívocos.

Contudo, em 2011, com a intervenção da “troika” e com uma política nacional de ciência e tecnologia bastante questionável, interrompeu-se o processo de  convergência com a Europa nessa área. A percentagem do PIB investida em ciência e tecnologia, depois de ter atingido o cume em 2009, tem vindo a descer, com a agravante de o PIB também ter descido. O impulso vindo de trás tem feito crescer tanto o número de pessoas formadas ao mais alto nível como o número de artigos científicos, mas é legítimo recear que, a médio prazo, à notável ascensão do passado recente se siga uma queda nos resultados se a aposta anterior não for prosseguida.

Nos últimos meses, foi anunciado o regresso ao investimento na ciência, havendo fundadas expectativas de que tal venha  a ocorrer. Por que razão é preciso continuar o crescimento do sistema científico nacional? Pela simples razão de que, apesar de termos dado um grande salto no ranking europeu, ainda não estamos perto da média da União Europeia de que fazemos parte. Foi na Europa que nasceu a ciência moderna com  a Revolução Científica do século XVII e, se hoje ela é um dos continentes mais desenvolvidos do mundo, é-o graças à sua continuada aposta na ciência. Vejamos, do lado do input como nos comparamos com a Europa a União investiu, em 2014, 2% do PIB em ciência e tecnologia, bem mais do que os nossos 1,3%, falando-se hoje de um horizonte em 2020 de 3%. Não admira por isso que, do lado dos outputs, estejamos muito aquém dos índices europeus.  Portugal, para chegar à desejada meta europeia de 2020, terá de, em muito pouco tempo (2020 está à porta!), aumentar o investimento em ciência e tecnologia para mais do dobro.

Como bem percebeu Mariano Gago, a ciência só pode ser sustentada se a sociedade tiver consciência da relevância da actividade científica, isto é, se existir cultura científica. Esta passa de modo formal através do ensino das ciências, mas passa também de modo informal através dos órgãos de comunicação social, onde o papel das agências noticiosas como a LUSA é imprescindível, e de várias instituições abertas ao público (museus e centros de ciência, planetários, oceanários, etc.).

As sociedades modernas baseiam-se largamente na ciência e tecnologia e é no sentido da maior percepção pública dessa ligação que elas têm de caminhar. Terá de ser o caso da Europa e, dentro dela, de Portugal.

Voltar atrás