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Ultrapassadas as curvas, Murça quis travar emigração com apoios ao casamento

O concelho de Murça ultrapassou as “míticas” curvas com a abertura do Itinerário Principal 4 (IP4) em 1995 e tornou-se também conhecido por ser o único a atribuir um subsídio ao casamento para tentar estancar a emigração.

Murça é terra da Porca, a estátua de pedra ícone do concelho, e das curvas que serpenteiam a serra ao longo da Estrada Nacional 15 (EN15), aquela que foi a principal via de acesso até 1995, ano em o IP4 passou a ligar este concelho ao litoral.

“Antes do IP4 demorávamos uma eternidade para chegarmos ao Porto, com o IP4 reduzimos significativamente esse tempo e depois, mais tarde, com a Autoestrada 4 (A4) passámos a estar a cerca de uma hora de distância”, afirma à agência Lusa o presidente da Câmara de Murça, José Maria Costa.

Sant’Anna Dionísio descreve no “Guia de Portugal” a forma de chegar a Murça: “No alto do Pópulo, quase de chofre, dá-se de face com um belo e imprevisto panorama. Abre-se diante de nós o profundo e amplo vale do rio Tinhela (…). A estrada, para vencer o enorme desvão que se lhe impõe, lança-se numa demorada e sinuosa série de lacetes, de cinco quilómetros – as chamadas Curvas de Murça – que, vistas de cima, dão a impressão de sinuosidades recreativas de uma serpentina”.

O autarca lembra que, com o IP4, o concelho “conheceu um maior desenvolvimento porque foi mais fácil escoar os produtos e as pessoas chegarem aos grandes centros urbanos”. “Aproximou Murça de todo o Norte e Centro do país”, frisa.

Concelho marcado pelo despovoamento, Murça quis travar a emigração concedendo um subsídio social a jovens casais. Foi o único município do país com este apoio ao casamento que vigorou entre 2003 e 2011 e ajudou cerca de 170 jovens casais com 1.500 euros.

Em 2007, a câmara introduziu também o subsídio à natalidade atribuindo 750 euros aos pais de cada bebé que nasce neste concelho do distrito de Vila Real. Devido à conjuntura financeira atual, esse subsídio desceu para os 500 euros e é entregue às famílias que ganhem menos de 1.500 euros por mês.

José Maria Costa refere que a autarquia acabou por extinguir o apoio ao casamento porque “feita a avaliação acabava por não ter impacto na fixação de casais e era esse o objetivo”.

Foi, no entanto, uma medida que mediatizou o concelho e foram várias as reportagens televisivas e de jornais que foram feitas com os casais beneficiários.

Nesta terra de transição entre o Douro e Trás-os-Montes, o vinho e o azeite são produtos “charneira” e nos quais assenta a economia do concelho.

A adega Cooperativa “Caves de Murça” possui 800 associados e atingiu um volume de negócios de cerca de cinco milhões de euros. Em 2015, foram produzidas 6.500 pipas de vinho (550 litros cada), das quais 2.000 foram de vinho do Porto.

António Ribeiro, presidente da direção, refere que 20% da produção já é para exportar para países como Angola, França, Luxemburgo, Suíça ou Bélgica.

Apesar da maior parte dos associados da adega ser já idosa, o responsável referiu que a maioria dos projetos de reconversão de vinhas está agora a ser promovida por viticultores mais jovens.

José Maria Costa sublinha, por seu turno, que o solo inserido na Região Demarcada do Douro (RDD) está a ser “aproveitado até ao limite”.

Mas, apesar de ter área inserida na RDD, o autarca diz que Murça “enferma de um problema que é ser um território marginal, periférico ao Douro”.

“Há um canal turístico muito forte que é o rio e as suas margens. Depois há os territórios que ficam mais periféricos e Murça recebe alguns turistas, mas não se pode dizer que seja um concelho muito turístico”, salienta.

Não é ainda um concelho muito turístico, mas quer ser. Para o efeito, segundo o presidente, no âmbito deste quadro comunitário, está a ser projetada a criação de um centro de apoio ao turismo de natureza.

Às paisagens, juntam-se o património como a Porca de Murça, o crasto de Palheiros, a via romana, a mamoa do castelo e, a nível da gastronomia, ganham destaque os doces conventuais como as queijadas e o toucinho-do-céu.

 

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