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Vagos passou em três décadas de concelho rural a município industrializado

Vagos passou em 30 anos de concelho rural a município fortemente industrializado, com um volume de negócios anual de 422 milhões de euros e uma taxa de desemprego mais baixa do que a média nacional.

Na base desta transformação esteve a capacidade deste município do distrito de Aveiro para fixar nas suas zonas industriais muitas empresas, nacionais e estrangeiras (555 empresas, segundo dados fornecidos pela Câmara Municipal), graças a uma política assente em preços baixos e boas infraestruturas.

Os números falam por si: há dez anos, a Câmara era a maior empregadora num concelho marcadamente rural e com um tecido empresarial pouco diversificado e constituído, na sua maioria, por pequenas empresas com menos de nove trabalhadores e volume anual de negócios inferior a 250 mil euros. Oitenta por cento dos vaguenses que nessa altura trabalhavam por conta própria dedicavam-se à agricultura, ao comércio e construção civil.

Dez anos volvidos, e de acordo com um estudo a que a agência Lusa teve acesso, realizado por uma empresa especialista no tecido empresarial português com informação oficial reunida até dezembro de 2015, o perfil do município de Vagos mudou.

A agricultura, pecuária, pesca e caça representam apenas 4% do setor empresarial do concelho, registando-se um crescimento das indústrias transformadoras, que empregam quase 60% dos 3.638 empregados registados no município.

Essa mudança reflete-se também no ‘ranking’ nacional dos 308 municípios portugueses, no qual Vagos surge agora na 103.ª posição em número de empresas, 97.ª em volume de negócios, 109.ª posição em empregados e 63.ª em volume de exportação.

Uma consulta aos dados disponibilizados pela Pordata, base de dados sobre Portugal contemporâneo, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, revela também que a população do concelho aumentou nos últimos 15 anos, em contraciclo com o resto do país.

“O indicador mais simples das mudanças ocorridas nos últimos 30 anos é o desaparecimento dos carros de bois das estradas do concelho, que quando eu era criança eram umas das marcas de Vagos, que chegou a ser o principal fornecedor de leite da Lacticoop [União de Cooperativas de Produtores de Leite de Entre Douro e Mondego]”, afirma Silvério Regalado, presidente da Câmara Municipal.

Opinião semelhante tem António Mendes, da Gafanha da Vagueira, ex-emigrante na Alemanha, que se espantou com a mudança de perfil de Vagos, quando regressou a Portugal para desfrutar da reforma.

“Antigamente, via-se muita gente a trabalhar nas terras, a espalhar moliço [fertilizante natural recolhido na Ria de Aveiro]e a levar as vacas à ordenha. Hoje, é mais camiões e gente com pressa, mas felizmente há trabalho para os jovens e os mais velhos continuam a manter umas hortas para consumo”, resume, enquanto lança o anzol no areal do Areão, à espera da companha de arte-xávega que acabou de ir ao mar.

Silvério Regalado, a concluir o seu primeiro mandato, orgulha-se de ter dado continuidade a uma política municipal seguida pelos seus antecessores, de diversas cores políticas, desde 1991, altura em abriu oficialmente a primeira zona industrial de Vagos.

A abertura da cerâmica Costa Verde, hoje uma das principais forças económicas de Vagos, com mais de 200 trabalhadores, mostrou o caminho para o município, que avançou com a constituição de uma empresa para gestão das zonas industriais que foram nascendo nos 165 quilómetros do concelho, marcado por extensas florestas, uma linha de costa que inclui as praias da Vagueira e Areão e terras de areia.

Participada em 49% pela autarquia, a Mais Vagos tem capitais do Conselho Empresarial do Centro, da Associação Industrial do Distrito de Aveiro, Núcleo Empresarial de Vagos e Colégio de Calvão, tendo como principais funções a criação de condições para atrair investidores.

Oferecendo boas infraestruturas, benefícios fiscais e preços baixos de lotes, a empresa tem atraído investidores de todo o mundo nos últimos anos.

É o caso da Ria Blades, maior empregador do concelho, com cerca de 800 funcionários, empresa de capitais alemães que constrói pás eólicas para aerogeradores, instalada desde 2014 no Parque Industrial de Soza, com um volume de negócios anual superior a 68 milhões de euros.

A lista de investimentos inclui empresas da África do Sul, China, Estados Unidos da América, Espanha e de muitos países europeus, que dão emprego a vaguenses e a muitas pessoas que moram nos concelhos limítrofes.

Nos últimos tempos têm surgido críticas à industrialização, sobretudo relacionadas com problemas de tráfego rodoviário (Vagos é atravessada ao meio pela Estrada Nacional 109), mas Silvério Regalado promete continuar a pressionar o Poder Central no sentido de reforçar a ligação rodoviária do concelho à A17, à ZI e seguidamente à A25 e ao porto de Aveiro, vias que considera “fundamentais e estruturantes para a competitividade das empresas do concelho”.

O autarca garante que o concelho está “no bom caminho”, lembrando a economia como “a área de intervenção mais importante no Plano Estratégico de Vagos”, documento elaborado pela Universidade de Aveiro depois de uma consulta aos cidadãos destinada a selecionar as prioridades dos próximos 20 anos.

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