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Veiga Maltez, o médico que “curou” o concelho “doente” da Golegã

Médico de profissão, José Veiga Maltez, eleito pela primeira vez presidente da Câmara da Golegã em 1997, pegou num concelho “doente” e, em quatro mandatos autárquicos, ajudou a construir uma “vila museu”, a partir do seu maior símbolo, o cavalo.

“O município da Golegã padecia de graves problemas higiossanitários e ambientais”, recorda à agência Lusa, lembrando que não se podia beber água da torneira, devido ao excesso de nitratos, a rede rodoviária era “degradada e insuficiente”, o comércio “adormecido”, na zona industrial algumas das poucas empresas instaladas não tinham acesso à rede elétrica, o parque escolar e desportivo estava “degradado” e não havia um picadeiro público coberto “naquela que se dizia ser a ‘terra’ do cavalo”.

A lista de “doenças” prossegue: o património monumental a precisar de preservação e reabilitação, a falta de “centros de fruição cultural”, e de políticas nesse domínio, o parque imobiliário degradado e a ser “desvirtuado, pela ausência de uma política de preservação da tradicional arquitetura portuguesa própria da região”.

Veiga Maltez, atualmente a presidir à Assembleia Municipal (impedido que foi, pela lei de limitação de mandatos, de se recandidatar ao executivo da autarquia em 2013), define-se como “médico-autarca”, apartidário (foi candidato à Câmara apoiado pelo PS e à Assembleia num movimento independente), e orgulha-se de, em 16 anos, ter transformado a Golegã numa “referência, associada à História de Portugal e do Cavalo, mediática e participada pelos cidadãos”.

O gosto pela arquitetura levou-o a “esboçar” e “riscar” dando à requalificação urbana e ao património edificado no concelho uma harmonia coerente com a tradição de uma região marcadamente agrícola e com uma arquitetura própria.

Quinta geração de uma família de criadores de cavalos, herdeiro de um património genético selecionado pelo seu bisavô, que apurou uma estripe do Lusitano, o “Veiga”, procurou sustentar o título de “capital do cavalo” com a construção de infraestruturas, como o centro de alto rendimento de hipismo ou o Equuspolis (centro de interpretação do cavalo e museu, implantado numa ampla zona verde), e dando projeção à centenária Feira de S. Martinho, à qual se associou a Feira Nacional do Cavalo e a Feira Internacional do Cavalo Lusitano.

A lista de “atos e factos” de 16 anos de gestão do município – que terminaram com um mandato de executivo “monocolor” -, facultada à Lusa, preenche várias páginas, indo das infraestruturas básicas à recuperação da “incomparável” Casa-Estúdio Carlos Relvas, construída originalmente (1872) para estúdio fotográfico, à introdução do hipismo como atividade de complemento nas escolas do concelho ou as iniciativas para fomentar o turismo, nomeadamente equestre (de cuja associação nacional é presidente).

A estratégia de desenvolvimento traçada contou com um precioso aliado, o setor agrícola, que na região se modernizou, encontrando na União Agrícola do Norte do Vale do Tejo (Agrotejo), com sede na Golegã, o apoio técnico que lhe permitiu tornar-se num fator económico de peso.

“É um concelho onde se vive bem”, diz à Lusa Mário Antunes, vice-presidente da Agrotejo, destacando o potencial agrícola da região, a marca “cavalo”, a arquitetura, a ruralidade, a gastronomia, a existência do que poderá ser a primeira Reserva da Biosfera reconhecida pela Unesco em Portugal, o Paúl do Boquilobo, realçando o trabalho “coerente” realizado nas últimas décadas.

Vítor Guia, presidente da Junta de Freguesia da Azinhaga, não esconde os “diferendos” que por vezes o opuseram a Veiga Maltez, mas não deixa de reconhecer o “bom gosto”, o “brio”, a atenção aos pormenores, a dinâmica que imprimiu ao concelho.

“Quando cheguei à Câmara Municipal da Golegã, utilizei a mesma sequência, como na vida médica, para o concelho – primeiro fiz a anamnese, depois a semiologia, a seguir o diagnóstico e por fim a terapêutica”, disse Maltez à Lusa.

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