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Viagem ao coração de uma base da Frelimo

Esta foi uma das primeiras zonas libertadas de Moçambique, um dos inícios de tudo, escondida sob as copas frondosas das árvores e entre as suas raízes, ocultando o comando provincial de Cabo Delgado e do segundo setor da Frelimo, embora as forças coloniais conhecessem por inteiro a sua existência e localização.

“Embora houvesse guerra, estávamos sossegados. As tropas coloniais sabiam da base, mas a proteção era enorme, a nossa tropa estava forte e bem armada”, relata Mário Abrão, um ex-aluno das escolas que a Frelimo criou no raio de proteção da base, onde até os professores carregavam armamento, usavam farda e, se necessário, também disparavam.

Peças de antiaérea cuidavam de manter a aviação portuguesa à distância, para eventuais investidas terrestres havia centenas de militares para o prevenir, mesmo assim o interior da Base Central conserva uma trincheira que dá a volta ao perímetro do quartel e vários abrigos subterrâneos ainda hoje prontos a usar, como demonstram as veteranas Merina Anaiva e Marcelina Saide.

Apesar de evidentes sinais de degradação, em que o mato avança indomável sobre a memória, o Ministério dos Combatentes tentou fazer deste lugar histórico um museu, assinalado por um grande pórtico, que marca o início de um percurso sinalizado.

Como em qualquer outra unidade militar, a Base Beira tinha a sentinela, logo depois a segurança, que fazia a triagem de acesso. “Se havia alguém para desconfiar, era detido aqui mesmo”, explica Mário Abrão.

Mais à frente, sob um túnel de arbustos, estava a máquina de moagem, manual como ainda se percebe, apesar da ferrugem, para prevenir qualquer fonte de ruído. Era ela a fonte de alimentação de milho e mandioca para os militares, que construíam as suas pequenas casernas individuais, em madeira e palapa, com o requinte dos respetivos alpendres à escala.

“Nesta mesinha alguém podia estar a escrever alguma coisa do seu interesse, o que quisesse”, prossegue Mário Abrão, apontando para a reconstituição destes espaços de retiro e também de liberdade dos soldados, “depois de tanto trabalho nas operações que andavam a fazer por aí, enquanto esperavam novas ordens”.

As ordens eram delineadas a partir dos reduzidos edifícios em tijolo, num dos extremos da base, onde funcionavam os diversos comandos – que em muitos momentos acolheram o próprio Samora Machel, primeiro Presidente da República -, apoiados por uma estrutura administrativa de que apenas restam quatro paredes e uma máquina de escrever a apodrecer no seu eterno descanso, depois de muitos comunicados batidos.

Cozinha, refeitório, casernas, Destacamento Feminino e parada, tudo isto continua no seu lugar, esta última preservando o mastro capturado durante um ataque às forças coloniais na estrada ente Muidimbe e Nangolo. Foi plantado bem no centro do aquartelamento e era neste local, sob a bandeira da Frelimo, que os guerrilheiros recebiam as ordens para as suas operações no precário mundo que os cercava e de onde nunca sabiam se voltavam.

O velho quartel conserva no seu espólio outras peças capturadas às tropas inimigas e que passou a usar em seu proveito, como baterias e geradores, tão discretos sob o arvoredo como toda a própria Base Central, entregue à erosão do tempo, à semelhança da própria imagem do fundador da Frelimo, Eduardo Mondlane, de cores desmaiadas, e que apela para a “unidade, vigilância e trabalho”.

 

 

* O presente texto é uma republicação após ter sido editado pela primeira vez no site da Lusa Dias da Independência

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