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Viagem Medieval, a marca de Santa Maria da Feira

O principal evento de Santa Maria da Feira arrancou como mercado de 48 horas limitado ao castelo e transformou-se, com o tempo, num cenário de 33 hectares e 12 dias, sendo hoje referência internacional no segmento das recriações históricas.

A origem do projeto, que teve início em 1996, deve-se a Cristina Perestrelo, que o lançou com Ana Nadais e hoje admite: “A ideia surgiu quase por brincadeira, quando percebi que o castelo podia ser melhor explorado. Foi uma aventura de jovens recém-formadas em Turismo, ainda com a pujança de fazer coisas novas e diferentes”.

O então presidente da Câmara, Alfredo Henriques, deu carta-branca às duas técnicas e assim nasceu a Viagem Medieval em Terra de Santa Maria, então com o envolvimento de 11 dos 14 municípios que há séculos haviam integrado o território administrativo sob alçada do castelo da Feira.

Em dois dias apenas, 10.000 visitantes confirmaram o sucesso da iniciativa. Em 1997 seguiu-se a segunda edição, em 1998 o evento foi suspenso porque a Expo98 reteve a sua fundadora e, em 1999, a Viagem regressou para não mais ser interrompida, passando à tutela da autarquia e da Federação das Coletividades de Cultura e Recreio da Feira (Fecofeira).

“Fomos pioneiras. Criámos o primeiro grande evento medieval do país e, como nunca imaginámos um resultado destes, é estranho e, ao mesmo tempo, gratificante”, diz Cristina Perestrelo, pensando nos 500.000 visitantes que a Viagem vem recebendo em cada edição.

Paulo Sérgio Pais é hoje o coordenador-geral da iniciativa e realça que, se em 1996 o evento teve “uma estreia relativamente singela, de dinâmica amadora, mas com alma”, em 2015 o diário espanhol Expreso já a descrevia como “a maior viagem medieval do mundo”.

Nesse amadurecimento influíram apostas estratégicas como a de 2000, quando, “aproveitando a presença de jornalistas nacionais e estrangeiros na cobertura da Cimeira de Chefes de Estado da União Europeia, no Europarque, a organização da Viagem decidiu levá-la para a rua e alargar o programa a 11 dias”.

Recriando em cada edição um período histórico específico, por vezes assegurando o câmbio da respetiva moeda no recinto, outros anos marcantes se seguiram: 2007, quando a organização distribuiu pela cidade os pendões que passaram a decorar varandas e janelas durante a Viagem, 2009, com a introdução de espetáculos de grande formato no programa, 2011, primeira edição com entrada paga, e 2012, quando o evento atingiu a autossustentabilidade, gerando uma receita superior aos seus cerca de 600.000 euros de orçamento.

“Mas, ainda maior que o impacto económico da Viagem é o seu impacto social”, nota Paulo Sérgio Pais. “Ela tornou-se a marca de Santa Maria da Feira, devolveu o sentido de unidade e sentimento de pertença a um território muito grande, onde os habitantes das freguesias mais afastadas não tinham com o concelho qualquer ligação afetiva”, explica.

Para Joaquim Tavares, presidente da Fecofeira, o mérito cabe também às 60 coletividades locais que regularmente participam na recriação: “A Viagem não teria a expressão que tem hoje se não tivesse nascido e desenvolvido a partir do coração associativo”.

Este responsável admite que o proveito económico retirado da iniciativa não é negligenciável no orçamento anual das coletividades, mas afirma que elas se envolvem no projeto sobretudo “pelo sentido de pertença, por quererem tomar parte criativa num grande evento que honra todos”.

Para Emídio Sousa, presidente da autarquia, é agora tempo de rumar à internacionalização. “A Viagem tem um impacto extraordinário na economia desta região toda, gera um retorno de pelo menos 12 milhões de euros anuais e o objetivo é aumentar ainda mais a sua projeção, para captarmos o interesse dos mercados europeus, sobretudo o espanhol”, diz.

“O potencial disto é, realmente, uma loucura”, concorda António Lima, o marmorista que em 2006 decidiu transformar o seu pátio e jardim numa taberna ativa apenas durante o evento. Nessa altura contava apenas com oito mesas e dez funcionários. Entretanto, tudo triplicou.

“Tem-se um trabalho medonho e a saúde ressente-se um bocado, mas é tudo uma questão de método e compensa sempre, porque, depois de tudo pago a fornecedores e empregados, ainda nos sobra um salário bem jeitoso”, informa, sem revelar quanto.

Já a remuneração de Liliana Silva como voluntária situou-se sempre entre os 1,5 e 1,9 euros à hora. Em dez anos de atendimento ao público nos Banhos de S. Jorge, esses honorários ajudaram-na a suportar despesas da faculdade, quando era estudante, e vêm-lhe engrossando a poupança, desde que está empregada. “A Viagem foi uma oportunidade de aprendizagem que surgiu no meu percurso e revelou-se uma experiência única, que me trouxe amigos para a vida. Fez-me feliz”, confessa.

Paulo Sérgio Pais não a ouviu, mas reagiria com o comentário que lhe é habitual sempre que se refere ao sentimento de pertença gerado pelo evento: “Lá está – felicidade! É essa a diferença entre ‘ir’ à Viagem e ‘estar’ na Viagem”.

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