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Vias rápidas desencravaram Vila Real da montanha

O Itinerário Principal 4 (IP4), que aproximou Vila Real do Litoral em 1988, permitiu transpor mais facilmente a barreira da serra do Marão e as cerca de 350 curvas da Estrada Nacional 15 (EN15), que deixavam os doentes mais doentes.

Antes da construção desta primeira via rápida rasgar a icónica serra que separa o resto do país de Trás-os-Montes, onde “mandam os que lá estão”, a principal via de ligação era a EN 15, que chegava a demorar três horas e meia a ser transposta – e havia quem se despedisse da família antes de enfrentar a viagem, dados os seus inúmeros riscos.

No quartel da Corporação da Cruz Branca, em Vila Real, uma fotografia do primeiro-ministro Cavaco Silva a passar revista aos bombeiros, na cerimónia de inauguração do troço do IP4 de Vila Real em direção Bragança, faz reavivar memórias e é o mote para uma viagem ao passado.

Ilídio Nunes, António Guedes, Henrique Dias e Antero Nunes foram todos motoristas na Cruz Branca e, por isso, tiveram muitas vezes de conduzir para o Porto em serviço de transporte de doentes.

“Vila Real pertencia a outro mundo, ao terceiro mundo. As estradas estavam cheias de buracos e era muito complicado fazermos o transporte dos doentes para os hospitais do Porto”, afirma Ilídio Nunes à agência Lusa.

Henrique Dias atravessou muitas vezes o Marão como motorista dos bombeiros, mas também como camionista, e o que mais recorda “são os buracos da estrada” e a altura em que, ao desviar-se de um buraco, meteu a roda da ambulância noutro e perdeu “suspensão e pneu”. “A roda com a velocidade voou para a serra e nunca mais a encontrámos”, lembra.

Por sua vez, António Guedes conta que os doentes, só de “pensarem nas curvas e contracurvas, ficavam ainda mais doentes” e que a viagem “era uma aflição para o próprio motorista, que ia o tempo todo preocupado com os passageiros”.

Depois veio o IP4. “Já não era sem tempo. Estávamos cansados”, frisa Ilídio Nunes.

Antero Nunes, também antigo motorista dos bombeiros, considera que esta via rápida representou uma “grande mudança” em termos de acessibilidades, porque “reduziu quilómetros”, permitiu poupar “duas horas na viagem” e, ainda, “no desgaste das viaturas” e nos “combustíveis”.

Mas nem tudo correu bem na nova via, já que, durante alguns anos, chegou a ser chamada a “estrada da morte”, devido ao grande número de acidentes e de vítimas mortais.

O atual presidente da Câmara de Vila Real, Rui Santos, recorda à agência Lusa que, antes do IP4, até se despedia quando ia para o Porto. “A viagem era incerta e demorava imenso tempo e, por isso, ia sempre a casa dos meus avós despedir-me e prometia trazer uma regueifa no regresso”, conta.

Armando Moreira, presidente da Câmara de Vila Real entre 1977 e 1994, refere que atravessar a serra “era um calvário” e que, por isso, o IP4 era “um sonho”.

“Com melhores acessibilidades, melhorou-se também a qualidade de vida das pessoas que aqui viviam e a atração de alguns investidores e de visitantes por Vila Real foi notória”, frisa o antigo autarca.

Se, antigamente, era preciso preparar a viagem para a zona do grande Porto com muita antecedência, agora Armando Moreira salienta que há muitas pessoas que vivem em Vila Real e diariamente se deslocam para trabalhar no litoral e vice-versa.

“Para cá do Marão” é uma expressão que deixa cada vez mais de ter sentido: o IP4 aproximou este território do litoral mas, a partir de 2016, a Autoestrada do Marão, que inclui um túnel rodoviário com 5,7 quilómetros que atravessa a serra, elimina definitivamente a “barreira mítica e simbólica” da serra do Marão.

Pelo meio, foi construída a A24, entre Viseu, Vila Real e Chaves, e a A7 que começa no Minho e termina em Vila Pouca de Aguiar, a poucos quilómetros da capital de distrito.

“Foi um avanço absolutamente fantástico”, afirma Rui Santos.

O autarca acredita que as novas infraestruturas ajudaram também no crescimento da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, que este ano assinala o 30.º aniversário, e do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, instituições ligadas à investigação, conhecimento e saúde que são atualmente das maiores empregadoras da região.

Por fim, Rui Santos salienta que o que é preciso agora é saber travar o despovoamento destes territórios e impedir que as autoestradas sejam uma “via aberta” para os jovens saírem de Trás-os-Montes.

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