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Vila Nova de Famalicão reinventa tradição têxtil

Vila Nova de Famalicão provou ser mais do que um concelho de tradição têxtil, projetando-se pela qualificação e diferenciação, o que lhe permite ocupar o primeiro lugar no ‘ranking’ regional de exportação e o terceiro a nível nacional.

Com 853 empresas, as indústrias transformadoras do têxtil e do vestuário tinham em 2013 um volume de negócios próximo dos 700 milhões de euros, números que confirmam a tradição do setor e “desfazem” a ideia de que este viveu um declínio que o condenou.

Lopes Cordeiro, professor da Universidade do Minho (UM), admite que Vila Nova de Famalicão, no distrito de Braga, não regista hoje o número de teares que deram nome à região antes de Abril de 1974, mas aponta que as empresas “souberam reinventar-se”.

O também coordenador científico do Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave, que fica localizado exatamente em Famalicão, fala de “um novo espírito de empresários que empreendem mesmo, enquanto antigamente eram mais patrões”, para resumir o que “salvou” o setor: qualificação e criação de “marcas”.

“Há 30/40 anos, a questão das marcas era um drama da indústria portuguesa. Não as tínhamos para além da Vista Alegre. Hoje, quem não conhece a Salsa?”, questiona, falando sobre uma marca de vestuário que nasceu em Vila Nova de Famalicão em 1994, dentro da Irmãos Vila Nova (IVN), fundada em 1987.

Com os responsáveis a referir uma faturação próxima dos 120 milhões de euros em 2016, produzindo 60% para o exterior, a IVN é vista como um exemplo da evolução ao longo da cadeia de valor.

“As inovações têm alavancado a nossa expansão internacional. Apresentamo-nos nos novos mercados com produtos altamente diferenciados”, indicou a IVN.

A ideia vai ao encontro da visão do diretor geral do Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e Vestuário de Portugal (CITEVE), Braz Costa, que, quando questionado sobre o que ajudou à sobrevivência do têxtil, soma a diferenciação, enumerando a aposta nos têxteis técnicos, nomeadamente os que são aplicados aos automóveis.

“As empresas que morreram entre 2009 e 2014 não encontraram o seu caminho”, analisa o responsável do CITEVE, centro que tem sede em Famalicão, mas atua a nível nacional desde há 27 anos, altura em que não existia no país nenhum laboratório ou estrutura que tivesse como missão dar suporte às empresas do setor.

“O grande desafio era melhorar a competitividade. Em particular, naquela altura. O setor precisava de abandonar produções de baixo valor e conseguir singrar em negócios com complexidade”, indica Braz Costa.

Já o Museu da Indústria Têxtil da Bacia do Ave nasceu, conta o coordenador, para riscar a “legenda negra” que paira sobre o têxtil.

“Efetivamente existem casos de fracasso, mas também existe o oposto. Novas que surgiram e antigas que se renovaram e estão na vanguarda a nível internacional, nomeadamente nos sintéticos”, afirma Lopes Cordeiro, dando o exemplo da Riopele, fundada em 1927 por José Dias de Oliveira, avô de José Alexandre Oliveira, atual presidente do grupo.

Com quase 90 anos de existência, a Riopele já passou por períodos de forte ascensão e, também, por fases em que enfrentou sérias dificuldades.

O administrador Bernardino Carneiro atribui a sobrevivência ao “investimento contínuo em inovação e em tecnologia” e recorda que a empresa se tornou líder europeia nas fibras sintéticas e integra o ‘top 10’ de empresas exportadoras portuguesas, tendo conseguido em 2014 e 2015 “o melhor desempenho dos últimos 15 anos”.

A produção da Riopele vai 98% para fora e a empresa estima uma faturação de 80 milhões de euros em 2016.

Bernardino Carneiro, quando questionado sobre o que tem alavancado Vila Nova de Famalicão, aponta a “investigação”. A IVN, por sua vez, descreve uma indústria têxtil que “mudou de paradigma”, com “resiliência e capacidade de adaptação e de inovação”.

Já o presidente da Câmara Municipal local, Paulo Cunha, reconhece que o “ponto de partida era muito negativo e o contexto e as contingências eram muito adversas”, para concluir que os empresários foram os ” grandes responsáveis pelo sucesso do setor têxtil” no concelho, sem esquecer o contributo do CITEVE e, mais recentemente, do Centro Nanotecnologia Materiais Técnicos, Funcionais e Inteligentes, criado em 2006.

“Temos de associar à dimensão tradicional que o setor tem no concelho, a qualificação dos recursos e o grande ganho foram os centros de excelência que vieram dar capacidade e tecnicidade para que o setor pudesse ganhar dimensão. Se é verdade que os básicos dominaram o têxtil até à década de 80, também é verdade que o setor soube procurar um outro espaço”, sintetiza o autarca.

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