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Vila Viçosa é “capital do mármore” à procura de recuperar fulgor

Na “capital do mármore” português, Vila Viçosa, a extração e transformação desta rocha ornamental, apreciada mundialmente, mantém-se hoje como “alavanca” do concelho, mesmo que a indústria ainda recupere dos “abalos” causados por guerras e crises internacionais.

“Há um orgulho intrínseco em toda a população e no município e é o mármore que leva Vila Viçosa um pouco por todo o mundo”, realça à agência Lusa Manuel Simões, proprietário de uma das empresas locais do setor e presidente da ASSIMAGRA, a associação que representa os recursos minerais de Portugal.

O presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Mármores, Granitos e Ramos Afins (ASSIMAGRA) conhece a importância desta rocha ornamental para o concelho alentejano, situado no “coração” do denominado “triângulo dos mármores” (que inclui também os municípios vizinhos de Borba e Estremoz).

“Não tenho muitas dúvidas de que o mármore é o principal empregador do concelho”, através das empresas do setor, mas também de “empresas envolventes, como metalomecânicas”, afirma o também dono da A. Bento Vermelho, uma das mais antigas empresas locais de extração e transformação do mármore, fundada na década de 60 do século passado.

Servida pela autoestrada 6 (A6), entre Lisboa e Espanha, Vila Viçosa “é onde estão localizadas mais empresas de extração [com pedreiras]e de transformação do mármore”, sublinha à Lusa outro industrial da área, Luís Sottomayor.

“É um setor de charneira e o mais importante do concelho. É o que gera mais emprego e a jusante há muita gente que depende desta atividade”, destaca o empresário, dono da Margrimar (transformação) e da Marmetal (extração).

Em concorrência com os mármores italianos, espanhóis, chineses e de outros países, o mármore de Vila Viçosa, cuja extração remonta à época romana, é exportado para todo o mundo (90 a 95% da produção é para os mercados externos).

“Apesar do papel de Vila Viçosa na História de Portugal, a existência desta localidade prende-se muito com a existência desta riqueza, já desde os romanos. Não há mais nenhum sítio do mundo que dê as pedras que estão nos templos romanos de Évora e de Mérida (na Estremadura espanhola), ou mesmo nos palácios árabes de Córdoba”, argumenta Manuel Simões.

Ao longo dos séculos, esta exploração foi tendo continuidade, ainda que com períodos de intermitência, e, com a era moderna da industrialização e com o século XX, a “excelente qualidade” e as “características únicas” do mármore local começaram a conquistar fama mundial.

As rochas provenientes do concelho alentejano foram parar a arranha-céus e a outros edifícios nas principais cidades do mundo ou mesmo à residência oficial do antigo líder do Iraque Saddam Hussein e a sumptuosos palacetes na Arábia Saudita.

“Este mármore é cristalino, qualidade que se reflete ao nível do polimento, fazendo com que pareça quase um espelho. Por isso, é apreciado em todo o lado, sobretudo no Médio Oriente”, relata Luís Sottomayor, explicando que os industriais vendem o produto em bloco ou já transformado.

Também o presidente da ASSIMAGRA frisa que “80% do mármore português sai de Vila Viçosa” e que “este cristal não existe em mais sítio nenhum do mundo”.

“Quando um arquiteto, para um determinado projeto, quer mármore Rosa Portugal ou Aurora, tem de ser de Vila Viçosa” ou do “triângulo dos mármores” alentejano, acrescenta.

As variações cromáticas da pedra local é que “causam problemas” e fazem com que “a aplicação deste mármore seja mais localizada”, por exemplo para “forrar as casas de banho de um hotel com 500 quartos”, ao invés de “ser aplicado tanto nas fachadas” de edifícios, conta Manuel Simões.

Mas, por outro lado, ressalva, essa ausência de uniformização também é uma virtude: “Cada projeto é único, não há duas divisões forradas com este mármore que sejam iguais”.

Os “anos de ouro” do setor foram vividos a partir do meio da década de 70 e nos anos 80 e 90, mas foram prejudicados pelos conflitos no Médio Oriente, nomeadamente a Guerra do Iraque, e, após alguma recuperação, pela crise financeira internacional de 2008.

“É um setor ao qual se devia prestar um pouco mais de atenção, a nível nacional”, apesar de “os empresários se terem vindo a desenrascar, com todas as dificuldades que têm enfrentado, desde o primeiro impacto com a Guerra do Golfo, em 1991, quando 70% do que exportávamos ia para o Médio Oriente, até esta grande crise de 2008 e 2009, em que a construção parou no mundo inteiro”, defende Manuel Simões.

A introdução de mais mecanização nas empresas já tinha reduzido o número de postos de trabalho, mas esta perda de fulgor do setor levou a mais despedimentos, assim como à suspensão de pedreiras e ao fecho de empresas.

A nível nacional, “os mármores empregavam cerca de 80 mil trabalhadores, nos anos 80 ou 90, e hoje em dia esse número ronda os 20 mil”, diz Nuno Gonçalves, do Sindicato da Cerâmica, Construção e Mármores do Sul, realçando que, em Vila Viçosa, onde “a empregabilidade nesta área era quase total”, já “não é esse o panorama”.

“Neste momento, conseguimos perceber que o que havia de destruição de postos de trabalho neste setor estagnou, o que havia de empresas para encerrar já encerrou. Há alguns problemas pontuais, mas há sobretudo estagnação”, frisa o sindicalista.

Já os empresários, conscientes de que dependem da flutuação dos mercados num mundo global e de que “a concorrência vinda de outros países é elevada”, ambicionam continuar a trabalhar e “crescer todos os anos”, mesmo que “já não existam crescimentos de 20 ou 30%, como noutros tempos”, e tentam diversificar um pouco mais os seus destinos de exportação, ressalva Manuel Simões.

Em Vila Viçosa, o mármore permanece omnipresente. Está presente, não apenas na atividade industrial, mas também nos passeios, nos edifícios e em diversas iniciativas que procuram a sua valorização, com rotas turísticas, concertos em pedreiras desativadas ou mesmo um museu e um hotel dedicados à temática.

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