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Vilar de Mouros fez de Caminha o concelho do “Woodstock” à portuguesa

A pacata aldeia de Vilar de Mouros não voltou a ser a mesma desde que acolheu o primeiro festival de música do país e ainda hoje goza da fama do “Woodstock” à portuguesa, que pôs Caminha no mapa.

À mítica edição de 1971, montada junto às margens do rio Coura e lançada pelo médico António Barge, que contou, entre outros, com a presença de Elton John e Manfred Mann, sucederam-se nas últimas décadas avanços e recuos na organização do evento.

Este ano volta a ressurgir, entre 25 a 27 de agosto, para, diz o presidente da Câmara de Caminha, “perpetuar a pedrada no charco” que então representou para o país.

O socialista, de 40 anos, ainda não era nascido em 1971 mas lembra-se das histórias que ouvia, ainda menino, sobre um festival “que mudou completamente a paisagem e a mentalidade de Caminha e do país”.

“Foi, talvez, o primeiro momento de libertação popular antes do 25 de Abril. A primeira manifestação pública, não direi contra o regime, mas por alguma coisa diferente”, afirma à Lusa Miguel Alves.

Alves foi eleito em 2013 e, no ano seguinte, retomou o evento. Por falta de público e de experiência da associação a quem entregou a organização cancelou a edição de 2015, que já havia sido anunciada. O regresso em 2016 foi inicialmente anunciado pela mão de um consórcio liderado pela promotora Música no Coração, mas acabou por ser entregue à Surprise & Expectation.

“Vilar de Mouros é muito mais do que um festival. É um fator de modernidade e de interpelação artística. Por isso, temos lutado muito pelo seu ressurgimento. Queremos voltar a ter a bandeira da modernidade, da capacidade de romper fronteiras, de provocar, de interpelar”, sustenta.

Antes de Miguel Alves, já a sua antecessora, a social-democrata Júlia Paula Costa, tinha enfrentado dificuldades na organização do evento. No verão de 2007, a um mês da sua realização, o festival foi cancelado por dificuldades de entendimento entre os vários parceiros.

Décadas antes, também Pita Guerreiro, o primeiro autarca eleito depois do 25 de Abril, quis relançar o festival, que não se realizava desde 1971. Conseguiu retomá-lo em 1982, com os U2 a atuarem pela primeira vez em Portugal, mas o evento também não teve continuidade por falta de “apoios financeiros”.

“Em dezembro de 1983 havia eleições e a oposição aproveitou o insucesso financeiro para tirar dividendos políticos”, desabafa o socialista, que tinha 38 anos quando chegou à Câmara de Caminha em 1976 e que deixou o cargo em 1993.

“Considerei os milhares de contos de prejuízo um investimento, mas a oposição teve um entendimento contrário e defendia que o festival, a voltar a realizar-se, deveria ser entregue a privados e não ser suportado pelo município”, adianta, lamentando que o esforço feito na altura tivesse sido em vão.

O último governador civil de Viana do Castelo espera “estar errado”, mas o cartaz deste ano dá-lhe poucas certezas: “Não tem qualidade para que o festival possa afirmar-se”, lamenta.

Ex-jornalista da Lusa, Fernando Zamith não tem a mesma opinião. Autor do livro “Vilar de Mouros – 35 Anos de Festivais”, lançado em 2003, o professor universitário, descendente de uma família da aldeia minhota, onde em miúdo passava férias, diz que é um cartaz “arriscado, mas que pode resultar”.

“A aposta no retro, no antigo, pode chamar as pessoas que vieram à edição de 82. Esse apelo à memória de voltar a Vilar de Mouros é interessante”, refere.

Ainda acredita que “é possível” fazer ressurgir Vilar de Mouros “pelas características únicas que o diferenciam dos outros”.

“Destruir é fácil. Construir é que é difícil. O festival está a iniciar um processo de reconstrução que vai ser demorado. Parece-me que estão reunidas muito boas condições, até ao nível do relacionamento institucional entre os vários parceiros, para ser retomado”, afirma, apesar de reconhecer a existência de “demasiados festivais em Portugal”.

Zamith esteve em quase todas as edições desde 1982 e garante que “há uma coisa que não podem tirar a Vilar de Mouros: Foi o primeiro festival realizado em Portugal antes do 25 de Abril. É uma marca forte que, sendo muito bem aproveitada, e estabilizando a organização, tem pernas para andar”.

As experiências “marcantes” que diz ter vivido no festival, a par da paixão pela localidade do concelho de Caminha, mantiveram -no fiel a Vilar de Mouros e este ano não será diferente.

Ora como presidente da Junta de Vilar de Mouros, cargo para que foi eleito pela primeira vez em 1989, com 37 anos, ora simples espetador, Carlos Alves nunca faltou a uma edição.

“É uma marca de Caminha. É um festival mítico, porque foi o primeiro realizado ao ar livre no nosso país e que desafiou o Estado Novo”, afirma o autarca comunista.

Atualmente com 64 anos, não tem dúvidas que o festival de 1996 “foi o mais espetacular de todos pelo entusiasmo e pela imensa gente que juntou”.

Este ano, e após a reeleição para a Junta de Freguesia em 2013, Carlos Alves volta a estar diretamente envolvido na organização e está otimista.

O festival “teve paragens forçadas que o debilitaram, mas acredito que tem condições para ressurgir em força e transformar-se no melhor do país e até da Europa”, defende.

“Tem todas as condições naturais. O cenário verde da envolvente é extraordinário. O rio, a ponte medieval, o verde. É um anfiteatro natural único”, destaca.

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